ANTOLOGIA CARIOCA
Cante a tua aldeia e serás universal. Hoje cantarei minha aldeia, conforme o conselho do poeta. O que o Rio de Janeiro assistiu neste sábado é coisa de antologia. A Rua do Ouvidor, a mais charmosa da cidade, foi brindada com momentos absolutamente inesquecíveis, dignos de entrar para todos os anais da mui heróica e leal cidade de São Sebastião. Vamos aos fatos.
1- A livararia Foha Seca, templo maior da carioquice, organizou o lançamento do livro do jornalista Luís Pimentel, Noites de Sábado, e do cd do grande Zé Luiz do Império, com direito a uma roda de samba de primeiríssima qualidade, liderada pelo cavaco do Daniel Scisinio e pelo sete cordas do Tiago Prata, o grande Pratinha.
2- O samba aconteceu ao mesmo tempo em que na igreja da Santa Cruz dos Militares, na esquina da Ouvidor, rolava um casamento. Como a noiva, a Renata, se atrasou, os padrinhos resolveram aguardar a cerimônia na roda de samba. Cheios de salamaleques e meio-fraques, abandonaram a liturgia do cargo e encheram o pote. Estimulado pelos jornalistas José Sergio Rocha e Cesar Tartaglia e pelo caricaturista Cássio Loredano, o noivo, o Horácio, desistiu de esperar a consorte no altar e também resolveu curtir o partido-alto. Zé Sergio, Tartaglia e Loredano tentaram de todas as formas convencer o Horácio que o samba era melhor que o matrimônio. Alguns mais ousados queriam cooptar a noiva para a quizumba. Os padrinhos, já dobrando o Cabo da Boa Esperança, concordaram. A cena, carioquíssima, foi digna das páginas mais inspiradas de um Sérgio Porto; Zé Luiz cantava Malandros Maneiros, um clássico em homenagem aos bicheiros da velha guarda, e os convidados do casamento acompanhavam na palma da mão. No auge da irresponsabilidade, o noivo convidou os presentes, a maioria esmagadora de bermudas e chinelos de dedo, para a festa do casório. O povão ovacionava os pombinhos de forma colossal - com gritos de Aha-huhu- ô Renata eu vou comer seu bolo! e coisas do gênero.
3- O jornalista Álvaro Costa e Silva, o famoso Marechal, ainda sóbrio, me disse: - Simão, eu sou Império Serrano, Botafogo e Bafo da Onça. Horas depois, aos prantos, Marechal me segurou e afirmou com a urgência dos condenados: - E Emilinha! Eu também sou Emilinha...
4- Zé Luiz do Império, estimulado por doses generosas da água que o passarinho não bebe, resolveu homenagear a Rua do Ouvidor, a Folha Seca e o Rodrigo Ferrari, que comanda a livraria ao lado da Daniela Duarte. Disse o Zé Luiz:
- Obrigado ao Rodrigo. Valeu, Rodrigo.
Imediatamente, ouviu-se uma única pessoa aplaudindo o Rodrigo. Era ele mesmo, o próprio Rodrigo Ferrari, que se aplaudia numa espécie de auto-homenagem comovente. Digão, já tocado, falou-me emocionado:
- Só eu me aplaudi.
5- O percussionista Carlos Negreiros, que deu uma bela canja, exclamou entusiasmado com a performance do Pratinha:
- Que sete cordas é esse? Escutem o sete cordas.
O compositor Jards Macalé, também estarrecido com as diabruras do garoto, perguntou:
- Quem é o menino do violão? Quem é esse monstro?
6- Sabem quantos policiais estavam fazendo a segurança do evento? Nenhum! Sabem quantos conflitos ocorreram? Nenhum! Vivemos um sábado monumental, digno de figurar num conto do Lima Barreto, numa novela do João Antônio, ou num samba-de-breque do Kid Morengueira.
O Rio de Janeiro vive!

8 Comentários:
Simas,
Se me permite um único reparo ao sensacional texto, a Senhora Ferrari, orgulhosíssima (também não é para menos) do filho, também, emocionada, aplaudiu. Mais tarde, após uma infinidade de saideiras, quando padecíamos de embriaguez aguda, já na Tasca do Edgar, ele me confessou, emocionado, tal fato. Foi uma coisa linda, e até o Marecha, que queria me espancar depois que eu disse que o Didi Folha Seca era tricolor, chorou e aplaudiu também.
Saudações,
Daniel A.
Simão,
Episódio digno de figurar, sim, num relato seu, como esse.
Maldita febre, que me deixou de molho no sábado.
Saravá!
Polícia? Com seu Tranca Rua de um lado e seu Sete Encruzas do outro, fazendo plantão na esquina da Ouvidor com a Travessa do Comércio, quem é que precisa de polícia?
Um dia desses, Careca, só pode ser presente de Exu.
Laroiê!
Fala aí, Simas. Como teu ex-aluno e ex-monitor, fiquei feliz em saber que agora está com esse blog. E soube por conta do acontecimento que narrou, que envolve um grande camarada meu, o Horácio, muito gente boa. Se não fosse pela narrativa de vcs, acharia que tinha sido premeditado por ele, já que ele tb se amarra em samba. Pena que eu não estava lá. Abraço.
Uma tarde excepcional - e carioquíssima! E viva a nossa aldeia!
Que beleza! Coisas daquelas que, se nos contam, achamos que é mentira. Só quem conhece o Rio sabe que cenas assim são possíveis. O Brasil é mágico, Simão!
aaaaaaaaah :/
Puxa, pena que dessa vez perdi. Estive em outra roda lá, no aniversário do Rodrigo, também maravilhosa. Mas a tarde de sábado tb foi muito carioca no Jardim Botânico, com belo show (0800) ao ar livre do Rabo de Lagartixa pra uma enorme platéia de todas as idades. Belíssimo cenário, belíssimo show!! (ps: o da semana anterior, com Pif Muderno+Suzano foi simplesmente antológico)
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