12/05/2007

UM HOMEM DO POVO

Minha avó, quando veio de Pernambuco, recebeu de sua Yalorixá a permissão para abrir uma roça de santo no Rio de Janeiro. Aqui chegando, comprou uns terrenos nos arredores de Rosa dos Ventos, um bairro de Nova Iguaçu, onde plantou o axé e criou sua casa de Xambá.
Foi ali que eu, menino, convivi com algumas figuras extraordinárias. Dentre elas havia um sujeito humilde, que tomava cerveja na birosca da esquina do Pecado, sempre descalço, falava muito pouco e gostava de ver a molecada jogando bola na rua. De vez em quando, assistia a curimba. Não me lembro que desse intimidade a muita gente. Era fechado, o cabra. Conversava com meu avô, o velho Luiz Grosso, nordestino como ele e, como ele, chegado numa cana firme.
Trazia um olhar permanentemente embaçado, profundamente triste e, para algumas crianças, ameaçador. Se sorriu alguma vez, eu nunca vi. Era semi-analfabeto. Lembro-me apenas de uma velha amiga de minha avó, Maria do Carmo, que parecia ser a única por ali que sabia que o sujeito era artista. Ela vivia dizendo isso : - Ele é compositor; tem até músicas famosas.
Ninguém acreditava, até porque essa Maria do Carmo tinha fama de ser meio doida.
Meus avós alugavam um apartamento modesto em Laranjeiras, pertinho do Catete, onde passávamos a semana. Na sexta, meu tio dirigia a Kombi da família e todo mundo ia pra macumba.
Foi em Laranjeiras que um amigo, Marcelo Mineiro, me chamou um dia - eu devia ter uns dezesseis anos - para ir a uma casa de música que tinha aberto na rua do Catete e era, segundo o Minas, baratinha. Só tocava música brasileira, o que pra nós, docemente xenófobos, era obrigatório. Fomos.
Foi nessa casa que eu descobri que o neguinho de Nova Iguaçu era, de fato, artista. E tinha cada música bonita de doer. Passei a ir, com o Mineiro, quase toda semana, mas nunca falei pro homem que o conhecia de Nova Iguaçu. Ele, certamente, nunca reparou na minha existência. Continuou morando em Nova Iguaçu, tomando as canas na mesma birosca, convivendo com os mesmos cachaças. Mas eu sabia, além da Maria do Carmo, que o homem era artista maior, um poeta do povo.
Um dia, discretamente, morreu à míngua, pobre de marré-de-si.
Hoje, lembrei do cabra e tomei a primeira gelada escutando uns cantos bonitos que ele fazia. Minha vela no altar da pátria, às margens do rio Maracanã, vai acesa na intenção do poeta que um dia subiu nos ares e foi brincar pra sempre no vento leste, onde dizem que ninguém é triste: - João do Vale, homem do povo.

2 Comentários:

Blogger Eduardo Goldenberg disse...

Que boniteza, velho!

Tu só esqueceu de dizer que bebíamos juntos, dia desses, pouco antes dele cantar pra subir, na esquina do Pecado, umas Therezópolis Gold que achamos por mera sorte, e foi o próprio João do Vale quem veio, timidamente, pedir pra provar da bebida, tu não lembra?

Conta tudo, pô!

12:11 PM  
Anonymous marecha disse...

Forró Forrado: entra solteiro, sai casado.

2:54 PM  

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