15/05/2007

RESISTIR É PRECISO

Vivemos, e isso não é novidade alguma, uma época de uniformização dos costumes, fruto deste tal "mundo globalizado". Em todo canto desse mundo velho sem porteira, gerido por mega-redes transnacionais de telecomunicações, são consumidos os mesmos filmes, utilizadas as mesmas roupas, ouvidas as mesmas músicas, falado o mesmo idioma, cultuados os mesmos ídolos. Nessa espécie de culto profano, em que a vida cotidiana é regida pelos rituais em louvor ao mercado, esse profano deus, o bicho pega e as idéias morrem.
Vivemos o fracasso das ideologias e das grandes instituições. Eu, que trabalho com alunos adolescentes e adultos, percebo que as crenças e projeções de futuro da rapaziada foram substituídas pelo pânico cotidiano - do assalto e das doenças, no âmbito pessoal, às catastrofes ambientais, na esfera coletiva. Cria-se uma lógica perversa - como posso morrer de bala perdida ou sucumbir ao aquecimento global, preciso viver intensamente o dia de hoje.
Ocorre que essa valorização extremada do tempo presente é acompanhada pela morte das utopias coletivas de projeção do futuro. Não há mais futuro a ser planejado. Somos guiados pelos ritos do mercado e abandonamos o mundo do pensamento, onde se projetam perspectivas e são moldadas as diferenças. Restaram, talvez, duas tristes utopias possíveis, em meio ao fracasso dos sonhos coletivos - a de que seremos capazes de consumir tal produto e a de que poderemos ter um corpo perfeito.
Transformam-se , nesse tempos depressivos, os shoppings centers e as acadêmias de ginástica nos espaços de exercício da utopia, onde poderemos comprar produtos e moldar o corpo aos padrões da cultura contemporânea - o corpo-máquina dos atletas ou o corpo-esquálido das modelos.
É aí, e eu queria falar disso desde o início, que localizo na minha cidade o espaço de resistência a esses padrões uniformes do mundo global - o botequim. Ele, o velho buteco, o pé-sujo, é a Ágora carioca. No botequim não há grifes, não há o corpo-máquina, o corpo-em-si-mesmo, a vitrine, o mercado pairando como um deus a exigir que se cumpram seus rituais.
O buteco é a casa do mal gosto, do disforme, do arroto, da barriga indecente, da porrada, da grosseria, do afeto, da gentileza, da proximidade, do debate, da exposição das fraquezas, da dor de corno, da alegria do novo amor, do exercício, enfim, de uma forma de cidadania muito peculiar.
É nessa perspectiva que vejo a luta pela preservação da cultura do buteco, capitaneada por gigantes no assunto como meu mano Edu Goldenberg e o mestre Fernando Szegeri, como algo com uma dimensão muito mais ampla que o simples exercício de combate aos bares de grife que , como praga, pululam pela cidade.
A luta pelo buteco é a possibilidade de manter viva uma Ágora efetivamente popular, espaço de geração de idéias e utopias - sem viadagens intelectuais, mas fundadas na sabedoria dos que tem pouco e precisam inventar a vida - que possam nos regenerar da falência de uma (des)humanidade que limita-se a sonhar com a roupa nova e o corpo moldado. O botequim é o anti-shopping center, é a anti-globalização, é a recusa mais veemente ao corpo-máquina dos atletas olímpicos ou ao corpo doente das anoréxicas - doença comum nesse mundo desencantado.
Ali, entre garrafas vazias, chinelos de dedo, copos americanos, pratos feitos e petiscos gordurosos, daquele mar de barrigas indecentes, onde São Jorge é o deus e mercado é só a feira da esquina, a vida resiste aos desmandos da uniformização e o ser humano é restituído ao que há de mais valente e humano na sua trajetória - a capacidade de sonhar seus delírios e afogar suas dores e medos na próxima cachaça. É onde a alma da cidade grita - Não passarão!
Essa guerra, amigos, é muito mais significativa do que imaginam os arautos do bom gosto e da tolerância.
Abraço

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25 Comentários:

Blogger Bruno Ribeiro disse...

Maravilha, Comandante!

Disponho-me às armas para enfrentar este combate.

Não Passarão!

9:03 AM  
Anonymous Felipe Bezerra disse...

Meus parabéns, Simas, pelo teu resistente e excelente texto!

Assim, que eu sair do laboratório da faculdade onde estudo, irei ao Bar Andorinha, um pé-sujo (acredite, cara!) da Vinícius de Moraes, em Ipanema, e beberei umas cervejas em homenagem ao teu texto.

Abraços!

1:16 PM  
Blogger Beatriz Fontes disse...

Perfeito! :-)

4:29 PM  
Blogger Szegeri disse...

Perfeito, Comandante, tem tirar nem pôr nenhuma vírgula, com a óbvia exceção à imerecida referência à minha pessoa. Assino embaixo e me apresento perfilado e batendo a devida continência.

E, se permite, aduzo um naco. Você mata maravilhosamente a charada com o "inventar a vida". É isso o que nos distingue dos demais seres vivos, que simplesmente reproduzem o padrão de existência a que foram condenados. Nós podemos inventar uma outra existência. E isso, veja você que dialética maravilhosa, é por um lado o que faz a contribuição de cada indivíduo ser única, insubstituível, original; por outro, essa atividade "inventiva" da vida só é possível de realizar coletivamente. Essa "outra existência" é essencialmente coletiva. Não é à toa que toda a padronização massificante que você aponta tenda para a exacerbação do individualismo.

Só pra arrematar. O buteco é, sim, o templo privilegiado dessa negação da existência pífia, individualista, repetitiva que nos tentam vender diuturnamente. Mas a resistência também está na roda de samba, na arte e na sabedoria popular, no Carnaval, nas formas coletivas de regulação da produção e dos conflitos inter-individuais, etc., tudo enfim que é criação, entendimento, construção em oposição ao formalismo, individualismo, padronização.

É o que eu venho tentando estabelecer na minha famosa e pouco apreciada série "A existência possível". Digo lá, exatamente a mesma coisa que você aqui, sem, evidentemente, o mesmo talento. Não se trata, pois, de profundidade versus superficialismo. Apenas optei, por necessidade, por ir estabelecendo uma espécie de genealogia dessas idéias que reputo serem a base da nossa forma de ver o nosso mundo e nosso lugarzinho nele.

Beijo

6:31 PM  
Blogger Diego Moreira disse...

Simas, eu que já dividi turma com você, sei, e seus alunos também sabem que você tem um poder de síntese muito grande.

Digo isso pois nesse texto curto encontrei a melhor defesa da causa dos botequins que já li. É verdade que li pouco sobre o assunto mas de tudo que já li foi aqui que encontrei a argumentação mais bem fundamentada e mais clara.

Quanto aos esportes alego que as modalidades de buteco são indispensáveis como o Levantamento de Copo.

E visto minha farda feita de bermuda, camisa e chinelo de dedo para me apresentar com disposição para enfrentar essa batalha.

[]s!

12:22 PM  
Anonymous Augusto Diniz disse...

Simas, belo texto. Já havia dito isso no blog do Edu. Mas fiz questão de colocar um comentário no seu. Uma beleza. A gente fica procurando algo por aí, pela internet. Mas tá um desastre. A egolatria eu quero distância. A rua do ouvidor faz bem.

7:01 PM  
Blogger Victor "Victhor" disse...

Simao, maravilhoso texto! Durante a leitura me ocorreu fazer uma relaçao com a análise de Bakhtin, a partir da obra rabelaisiana, da visao carnavalesca do mundo. O Boteco como um dos porta-vozes do riso carnavalesco popular. Me pus a pensar nos elementos materiais e corporais que caracterizam o universo de Rabelais e que, a partir dos seus apontamentos no texto, estao presentes também nos "pés-sujos": O baixo corporal, o corpo grotesco, o riso, o sério-cômico, a imagem do banquete, a comida, a bebida, o corpo, a sexualidade. E, me pareceu que, em ambos os casos, somos convidados a ouvir um grito de resistencia que parte do fundo da alma da cultura popular: Nao passarao!
Enfim, com isso tudo queria dizer: Simao, genial!!! Sou um combatente permanente nesta batalha!

Abraçao

10:23 AM  
Blogger tete bezerra disse...

realmente os botecos quando mais "sujos e decadentes" mais se tem calor humano e vida pulsante.

11:13 AM  
Anonymous Flávio disse...

Todos esses intelectuais babacas, que escrevem nos meios de comunicação, não sintetizaram tão bem o conflito entre essa sociedade fútil e materialista e a vida real, com pessoas reais.
Outra coisa, come-se e bebe-se maravilhosamente bem nos botecos cariocas.

3:45 PM  
Anonymous Arthur Favela disse...

Este texto tem que ser espalhado pelos sete cantos!

5:09 PM  
Anonymous Pedro(um aluno) disse...

MARAVILHA!!!
TOMEMOS UM CHOPP E BRINDEMOS AO BUTECO!!! VIVA A RESISTÊNCIA!!!

6:20 PM  
Blogger Eduardo Goldenberg disse...

É, mano querido... Nossa guerra ganha corpo, nosso exército ganha força e aos pouquinhos, tenha certeza, o barulho vai ficando mais forte, a ponto de incomodar a canalha. Há que se ter, apenas, e já falamos sobre isso, cuidado com a seleção dos soldados, para valer-me da expressão corrente em quase todos os que se chegam a nós, à luta - que não é nossa, diga-se de passagem. Deixa comigo essa parte. Eu te aponto os que devem ser dispensados por excesso de contingência, em todos os sentidos. Beijo.

7:30 PM  
Blogger Luiz Antonio Simas disse...

BRUNÃO, às armas! como manda o velho hino português;
FELIPE, cerveja gelada , por obséquio;
AVE SZEGERI, Marechal de Campo do nosso Exército, é exatamente isso!
AUGUSTO, a Ouvidor é nossa trincheira;
VICTOR, volte aos butecos, cacete;
TETE, esse calor humano é literal;
FLÁVIO, o que dizer dos preços? Bom, bonito e barato, como um velho samba da Ilha;
FAVELA, espalhe, velho.A causa é justa e imperiosa;
EDU, o barulho está só começando, mano.A infantaria, sob suas ordens, está pronta para o ataque.
beijos

9:10 PM  
Blogger Eduardo Goldenberg disse...

Ô, velho Simas: vê-se que você nem vai precisar da minha, digamos, assessoria na seleção do time!

Santa sintonia!

Beijo.

9:12 AM  
Blogger Diogo Lyra disse...

Grande Simas, texto primoroso - como, aliás, mostraram-se diversos outros lidos por mim aqui, nesse vagar virtual. Confesso, até, que cada texto lido despertou a vontade de um novo elogio, mas por economia de tempo - porque tempo é dinheiro e dinheiro na mão, como disse Karl Marx, é vendaval - deixo aqui uma deferência geral!
A propósito, não há como deixar passar um comentário sobre o texto que critica o movimento "politicamente correto". Outra obra-prima.
É sempre revigorante se deparar com uma cabeça pensante e, ainda por cima, botafoguense! Agora eu vi que a propaganda do Edu não era só coisa de amigo-coruja, pois o que lhe falta em cabelo na cabeça é remediado por neurônios e sinapses dignos, em volume capilar, da buceta cláudiaohaniana dos anos 80!!!!!
Abraços e tudo de bom.

9:23 AM  
Blogger 4rthur disse...

Essa coisa de "inventar a vida" da qual você fala, e que é belamente explorada também pelo Szegeri, me remeteu aos clássicos versos de fernando Pessoa que, ao anunciar que "navegar é preciso, viver não é preciso", nos lembra da importância de constantemente reinventarmos a vida e descobrir novos sentidos para nossa existência (ou pelo menos, uma das chaves de interpretação desses famosos versos...). A grande sacada, pra mim, é você eleger, com tanta propriedade, o botequium como o espaço onde se dá este processo de invenção.

Brilhante!

Grande abraço.

12:27 PM  
Blogger Diego Moreira disse...

Simas, em Stalingrado, os comandantes de Hitler cometeram a maior burrice militar da história avançando em direção ao exército vermelho com força total e deixando a retaguarda desprotegida.
Stalin, com genialidade estratégica, foi ao rádio convocar o povo de Stalingrado que lutasse nessa batalha. E os cidadãos partiram às ruas com as armas mais precárias e inusitadas: Pés de cabra, facas de cozinha, espingarda de chumbinho... enfim qualquer arma que sevisse pra matar alemão.

E o exército nazista, sem proteção, foi prensado e destruído com a ajuda do povo, provando que numa batalha de verdade ninguém é dispensável.

Só é dispensável aquele que não tem afinidade com a causa que nos leva a luta. Mas prescindir da garra daqueles que vestem com fervor a camisa da pátria é incoerência, é acender vela pro difunto errado...

Deixem o exército crescer!
Chamem os cachaças, os bebuns que têm mais álcool do que sangue correndo nas veias! Os barrigudos levantadores de garfo e copo! Todos esses, personagens típicos dos botequins, tem lugar nessa guerra!

Proteger a retaguarda, em todos os sentidos, é indispensável.

[]s!

11:45 PM  
Blogger Diego Moreira disse...

... "defunto"
Só depois de publicado é que vi..
[]s!

10:14 AM  
Anonymous Diogo Alves Goulart disse...

Excelente reflexao!!! Mas neste universo em que vivemos de máquinas, noréxicas ambulantes, mundo carpediem, como disse: nao há utópias ou apenas sonhos decentes a vivenciar. Dizemos que queremos paz, menos violência, ... mas o que fazemos para tal? Pedimos a paz e o ensino público a sociedade continuam precárias. Pedimos menos violência e pessoas mais necessitadas continuam sendo recriminadas e excluidas desse mundo individualista. Em evidência a exuberânte nobreza, como sempre. Ainda são cultivados ídolos como CHE GUEVARA, MANDELA,entre outros em pleno século XXI porque não surgiram outros até agora com propostas mais inovadoras. Estamos sendo sujeitos a ouvir algumas 'crianças' dizerem que querem ser bandidos ou chefes do morro quando crescerem. Mas se a perguntamos o por que nem as sabem responder. Ou sujeitos a um maluco do oriente explodir uma bomba AGORA e ir tudo para o auto. Será até quando que propostas ou reflexões como estas simão ficaram só no papel, em mesas de bares ou numa página da web? Quando enganjaremos num ideal afinco? deixarmos nosso mundinho de lado à vivenciar uma utópia? ou melhor sobreviver ao mundo individualista?

1:23 PM  
Blogger ipaco disse...

Querido Simas, para mim, o boteco é a sobrevivência da prática narrada por Platão no Banquete, cuja tradução é equivocada, pois no original grego symposium não quer dizer banquete, mas "beber juntos", os pares bebendo juntos e falando de amor, política, enfim, da vida. E é isso que se faz nos balcões dos botequins da cidade, não é mesmo? Podemos dizer, nessa linha de racioncínio, que preservar o botequim é preservar a tradição defendida por Platão.

Abração, mano véio, e parabéns pelo belo texto

pt

1:29 PM  
Anonymous Betinha disse...

Sábado, 15 h. Bar Brasil LOTADO, com pessoas esperando em pé por uma mesa. Ao mesmo tempo, Informal e Antonio's completamente vazios. O povo não é besta.

10:11 AM  
Blogger 4rthur disse...

Vê como estavas certo? Ao transformar esse post num verdadeiro espaço virtual de resistência, tal qual os botecos nas esquinas de carne, osso e asfalto, já foram convocados para o exército Bakhtin, Marx, Fernando Pessoa, Che, Mandela, Karl Marx e até a buceta da Claudia Ohana!

Com esse time, é claro que não passarão!

3:18 PM  
Anonymous Natasha disse...

Sensacional! Repassei por e-mail, com os devidos créditos autorais.
Beijo.

9:13 PM  
Blogger Alessandro Campos disse...

Olá Simas! O que dizer? Prazer! Pelo texto e pelo blog. Reproduzo e recomendo para outros amigos, se me dá licensa, já foi feito... Também te adiciono para não perde-lo de vista e digo que nos "veremos" mais por aqui. Força na caminhada e um grande abraço.
Alessandro
www.paladardepalavra.blogspot.com

8:38 AM  
Blogger Alessandro Campos disse...

esqueci de dizer: encontrei ele no buteco do Edu e sei que faz um tempinho que você escreveu, mas para essas coisas imagino que nunca é tarde demais, pelo contrário... Axé!
Alessandro

8:40 AM  

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