08/05/2007

PONTOS CORRIDOS DE CU É ROLA


A semana pertence, evidentemente, ao futebol. Domingo houve a épica final do campeonato carioca, com o empate no tempo normal e a vitória do Flamengo nos tiros livres da marca do pênalti. Meu Botafogo entrou pelo cano. Mas vem muito mais por aí.

Amanhã tem o Mengo na Libertadores, quinta tem o Botafogo na Copa do Brasil e domingo começa o Brasileirão.

Tá tudo muito bom, tudo muito certo, mas tem algo que me incomoda profundamente - eu não gosto da fórmula de disputa do campeonato brasileiro, com todos jogando contra todos, o famoso campeonato de pontos corridos. O campeão é o clube de melhor campanha. Acho essa fórmula uma bosta e digo porque.

A fórmula do brasileiro é a mais justa. Acontece que estamos falando de futebol, onde a justiça não deveria significar nada. Do futebol eu espero emoção, a justiça que se dane. Não há nada mais previsível do que a vitória do melhor e uma das graças do velho ludopédio está na possibilidade constante da vitória do mais fraco. Essa história de pontos corridos me cheira àqueles projetos de gerenciamento de empresas, em que os resultados devem ser meticulosamente alcançados a partir do planejamento e da competência. Uma babaquice, em suma. A derrota do mais forte é a celebração do inesperado. Como brasileiro e doido por um futiba, gosto é de final, mata-mata, prorrogação, tudo ou nada, jogo que provoca infartos, suicídios, colapsos nervosos e coisas do gênero.

Eu já terminei namoros, perdi amigos, sofri a morte de parentes muito próximos, mas afirmo com todas as letras que a única vez em que tive a sensação de que a vida tinha perdido todo o sentido foi no inacreditável Brasil 2 X3 Itália pela copa do mundo de 1982, derrota que nos eliminou. Aos 14 anos, pareceu-me que viver não significava picas diante da tragédia do Sarriá. Acho mesmo que nunca me recuperei daquele jogo.

O campeonato de pontos corridos é a importação de um critério europeu, frio, metódico, que está a léguas de distância da nossa cultura. Campeonato que se preze tem que ter final e não se discute. Preferir pontos corridos ao mata-mata é achar que o Juca Kfouri é melhor que o Nelson Rodrigues - um disparate completo.

Digo isso, inclusive, porque o Botafogo perdeu o campeonato carioca para o Flamengo tendo a melhor campanha. Grandes merdas, como deveria ter dito, mas não disse, o cantor dos navegantes. Perdemos a final e não se discute. Fiquei furioso, ainda estou abalado, quero matar o bandeirinha com requintes de crueldade medievais, desejo a morte dolorosa do juiz, mas saí desse carioca com minha paixão pelo futebol renovada, preparado para enfrentar mais noventa minutos no jogo de quinta-feira. Estarei no Maracanã, como sempre, com o sentimento de dever cumprido, similar ao do muçulmano que faz sua peregrinação a Meca.

O velho Heráclito, que sabia das coisas e tinha pinta de botafoguense, dizia que viver é a arte de esperar o inesperado. De minha parte, digo apenas que o futebol me ensina essa máxima do pré-socrático com constância comovente.

Esse brasileirão, com uma tabela que parece planilha empresarial, emocionante como uma convenção do PSDB, me deixa puto nas calças. Eu quero sofrer, porra!

8 Comentários:

Blogger Bruno Ribeiro disse...

Simas querido, perfeito o seu texto! Assino embaixo, pois sempre defendi o mesmo. Dentre os esportes coletivos o futebol é o único em que o mais fraco pode bater no mais forte. Mas estão querendo torná-lo tão previsível quanto o basquete e o vôlei. Eu cantei essa bola e vc me chamou de saudosista, lembra-se? Estamos retrocedendo, há de chegar o tempo em que voltaremos a entrar em campo de gravatas! Mas o encanto do futebol não acaba nunca e a final do Carioca atesta isso. Aqui no Brinco de Ouro eu também quase morri do coração com meu Guarani, foi um sofrimento medonho, o jogo não terminava nunca e quando terminou eu me perguntei: "Meu Deus, para que tudo isso? Qual é o sentido dessa porra?". O sentido, querido, é a capacidade de o futebol dar à vida uma dimensão épica possível e real. Eu também não me recuperei da derrota em Sarriá e até mesmo defendo uma tese de que aquele jogo é o marco inicial do futebol-empresa, do neoliberalismo futebolístico. Foi a partir dali que os dribles passaram a ser meros detalhes diante de um resultado favorável. O gol de Falcão - aquela foto inesquecível - foi o último gol do futebol brasileiro que poderia ter sido. Beijos.

12:03 AM  
Blogger Diego Moreira disse...

Meu camarada, esse texto ficou excelente, pra variar.

Foi exatamente o que pensei quando cheguei em casa, do maraca, no domingo. Ouvindo os alunos flamenguistas eufóricos e os botafoguenses inconformados, quis até escrever sobre isso.

Mas não seria tão bom. Ainda bem que não o fiz. Rabisco embaixo, com minha caneta virtual, esse texto, palavra por palavra, malandro.

Abraço.

10:07 AM  
Blogger Beatriz Fontes disse...

"Eu quero sofrer, porra!"

Mas, querido, você já não está sofrendo??? ;-)

1:36 PM  
Blogger Luiz Antonio Simas disse...

Brunão, belo comentário. Pau no futebol-empresa, sempre.

3:11 PM  
Blogger Szegeri disse...

Amarildo, a tua tese é sedutora, boa de ler e de defender, como são as grandes boutades em geral. Mas, sinceramente, não consigo concordar. Talvez porque tenha começado muito cedo nesse negócio do futebol e me lembre perfeitamente dos campeonatos de fórmulas mirabolantes, com 140 clubes e 23 fases, com milhões de mata-matas que não matavam ninguém e só faziam engordar a conta política dos super-caciques que se perpetuaram entre nós desde então. A fórmula de pontos corridos é simples e não é só um modismo importado como tantos que campeiam por aqui. Ela grassou nos nossos gramados tupiniquins nas décadas de 50 e 60 e não acho que o futebol, por esse motivo, tivesse menos encanto.

Emoção é bom e é fundamental no futebol, como também é na vida, no amor, na arte etc. Mas não é tudo, querido. Assim como namorar não é só trepar, e trepar não é só gozar. E casamento não é só a hora que o padre nos declara casados; é todo o dia, dormir junto, comer junto, acordar, brigar, criar os filhos. Há os momentos de intensidade, mas há os momentos de calma, os de contemplação. E, ademais, nem todas as emoções são enormes e talvez as melhores, mesmo, sejam as menores, as mais singelas, as mais corriqueiras. Sinceramente, eu não sei te dizer se foi maior a emoção de ver minhas filhas nascerem ou quando elas me dão um sorriso ou um beijo a cada manhã.

Eu venho de uma família em que meu avô assistia absolutamente tudo o que passasse na tevê de esporte; futebol, então, nem se fala! Aprendi a gostar tanto da final da Copa do Mundo como um jogo de meio de certame do Desafio ao Galo, um torneio varzeano de saudosa memória, transmitido nos domingos de manhã pela finada Tv Record. Porque o Velho, como seu irmão que com todas as graças ainda está entre nós, firme e forte, amava o futebol, a bola rolando, a magia e o encanto da bola rolando. O drible tem a sua beleza, valha ele o campeonato nacional ou simplesmente tirar uma onda com o zagueiro entortado na cerveja de depois da pelada. Eu sou palmeirista de assistir TREINO do meu time TODOS OS DIAS, DURANTE ANOS A FIO. Amo o Palmeiras time, amo o Palmeiras clube como um lugar sagrado, como a minha grande casa existencial. Mas amo o futebol, gosto de ver jogo. Ia assistir o Corinthians jogar nos anos 80, só pra ver o Doutor Sócrates em campo. Como paro para assistir pelada quando vou à praia em Santos. Gosto da emoção, da irracionalidade, de xingar e sofrer, mas gosto também de sentar com quem curte o jogo, fazer um cometário sensato, descobrir uma nova maneira de jogar. Em suma: a emoção, a batalha, o caráter épico é maravilhoso, essencial, insuperável. Mas o jogo prosaico que consiste em usar os pés (no sentido inverso de toda a evolução da vida no planeta Terra) para dominar um corpo esférico tem uma beleza singela, uma poesia corriqueira que também é fascinante, prazerosa. E a união dessas duas dimensões faz a grandeza do futebol ainda mais insuperável

É para isso, meu caro, que há a Copa do Brasil, a Libertadores, a Copa do Mundo. Mata-mata é legal, é gostoso. É trepada doida, violenta, apaixonada, tesuda, que faz sofrer, doer, gozar, gemer. Mas não é tudo. Campeonato longo também é legal. É namoro, é casamento, é ir no cinema de mão dada, é levar o café na cama, ligar só pra dizer que tá com saudade, ficar parado na porta do quarto só pra assistir o bebê dormir...

Abraço!

6:17 PM  
Blogger Luiz Antonio Simas disse...

Szegeri, meu velho, como tenho uma relação com o futebol parecida com a sua, e como também venho de longe - e bota longe nisso - sugiro a adoção da fórmula do campeonato de 1992, a minha predileta. Todos jogam contra todos, pontos corridos portanto, e os oito melhores vão para o mata-mata final.
Convenhamos que passear de mãos dadas, ir ao cineminha, ver o bebê dormir, é de fato uma maravilha. Mas a noite pode terminar com uma trepada. Acho mesmo que é o complemento ideal.
Abraço!

8:13 PM  
Anonymous Marcelo disse...

Concotdo totalmente com o Szegeri. Há espaço para os dois sistemas. E, se tudo der certo, grande Simas, vamos nos encontrar na finalíssima da Copa do Brasil. Haja coração!

12:02 PM  
Anonymous Leo Boechat disse...

Também gosto dessa fórmula ponto corrido e depois classificam 8.

6:18 PM  

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