SILÊNCIO NA MANGUEIRA

As escolas de samba do Rio começaram a divulgar seus enredos para o carnaval de 2008. As primeiras notícias são desanimadoras. Assistiremos, mais uma vez, a uma penca de enredos patrocinados por empresas, cidades e Estados. A coisa anda tão feia que até a Universal do Reino de Deus está pensando em patrocinar algum enredo sobre a vida e a obra do bispo Macedo, com um desfile que não permitirá, evidentemente, mulheres nuas e foliões embriagados.
Nada, porém, supera o descalabro que a Mangueira irá cometer na passarela. No ano do centenário do divino Cartola, a Estação Primeira homenageará o centenário do frevo, em enredo bancado pelo estado de Pernambuco. É caso de polícia, uma escolha inominável que merece o repudio contundente de toda a nação mangueirense.
Não tenho patavina contra o frevo, muito pelo contrário, mas a Mangueira não poderia apresentar NENHUM enredo no centenário de Cartola que não fosse sobre a vida e a obra do fundador da escola, gênio maior da nossa música.
Essa escolha está me lembrando o tiro no pé dado pelo Império Serrano em 1997. Naquela ocasião, em que o Império comemorava o cinquentenário de fundação, a diretoria vendeu o enredo para o caubói Beto Carreiro. A homenagem ao pascácio vaqueiro foi, quero crer, o pior momento da história da verde e branco da Serrinha; o Império desceu para o grupo de acesso com um desfile grotesco. Os deuses do samba foram implacáveis e deu tudo errado pra nação imperiana. Te cuida, velha Manga, e toma vergonha.
***
Ainda sobre a Mangueira. Faleceu, no final do mês passado , o grande Jurandir Pereira da Silva, mangueirense de boa cepa e autor de alguns dos sambas mais bonitos da verde e rosa. Costumo dizer aos meus alunos que não há frase mais contundente sobre a condição do negro no pós-abolição que o trecho do samba do Jurandir e do Hélio Turco sobre o centenário do fim do cativeiro: - Pergunte ao criador / Quem pintou essa aquarela / Livre do açoite da senzala / Preso na miséria da favela.
Esse samba - 100 anos de liberdade, realidade ou ilusão? - vale mais que mil teses acadêmicas sobre o assunto.
Daqui, às margens do rio Maracanã, imagino que Jurandir já tenha encontrado Cartola no Orum misterioso das almas. Após cantarem juntos Vale do São Francisco e Exaltação a Villa-Lobos - as duas maiores melodias da história dos sambas de enredo da verde e rosa, a primeira do mestre e a segunda do Jurandir - chamaram Nelson Cavaquinho, Babaú, Carlos Cachaça, Zé Com Fome, Aluísio do Violão, Geraldo Pereira, Alfredo Português, Geraldo das Neves, Padeirinho, Jorge Zagaia e Tolito e mandaram na lata:
Todo tempo que eu viver
Só me fascina você
Mangueira
Guerreei na juventude
Fiz por você o que pude
Mangueira.
Continuam nossas lutas
Podam-se os galhos, colhem-se as frutas
E outra vez se semeia
E no fim desse labor
Surge outro compositor
Com o mesmo sangue nas veias.
A Estação Primeira é que parece não estar ouvindo nos rumores invisíveis do tempo a voz dos seus baluartes. Há que se cuidar da casa dos Eguns.
Jurandir, velho mestre, mojubá!

4 Comentários:
Lindo texto, Simão. E eu acredito também que os deuses do samba, assim como os deuses do futebol, são implacáveis contra os picaretas. No final, vem sempre uma lição. Bebamos nós ao mestre Cartola, com toda a sede que ele merece!
Simas, grande texto. Mangueirense de coração, sinto o 'Peito Vazio', ao ver uma aberração como essa. 'Assim não dá'! Tenho vontade de por uma 'Fita nos meu olhos' pra não perder a 'Alegria'... 'Quem me vê sorrindo' não imagina que choro o 'Pranto de poeta' pelas saudades do cartola. Ainda bem que 'Sei Chorar'. Malandro, quando vê a escola descer à 'Catedral do inferno', 'Disfarça e Chora'.
Ah, 'Mangueira'. 'O mundo é um moinho'. Te cuida, minha 'Divina Dama', pois 'Ao amanhecer', certamente 'O Sol nascerá'. Mas se esqueceres a magia das 'cordas de aço' do mestre Cartola, talvez ele só possa te dizer: 'Fiz por você o que pude'. E a 'Alvorada' não será tão bela pra você.
Grande texto, mestre. Bastavam os versos do refrão de 1989 para saudarmos etermente o Jurandir. Uma pena que a Mangueira esteja, ano após anos, caindo nos erros que nós, imperianos, já caímos...
Caro LA Simas,
Tenho acompanhado, por indicação de uma amigo, seus textos. Parabéns pela coerência e humor ácido, feito sempre com consistente conteúdo.
Esse texto chamou-me a atenção pois não sabia do óbito do bamba Jurandir da Mangueira. Realmente, muito triste o falecimento de Seu Jurandir, era, além de grande compositor, dono de uma potente voz e de simplicidade cativante.
Saudações,
Daniel A.
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