20/04/2007

PLANEJAMENTO DE VISITA


Considero o período regencial (1831-1840) um dos mais interessantes da história do Brasil. Logo após a abdicação de Dom Pedro I, e diante da menoridade de Dom Pedro II, vivemos essa estranha experiência de uma monarquia sem a figura do Imperador, que era então tutelado por José Bonifácio e se preparava para assumir um dia o trono.

Aliás, figuraça o nosso Dom Pedro II. O menor abandonado mais famoso da nossa história. Sofreu com a morte precoce da mãe ( Dona Leopoldina) e viu o pai se empirulitando para Portugal, enquanto ele, coitado, ficava sob guarda dos brasileiros, tendo aulas de grego, latim, história natural, filosofia, ciências, estética, poética e literatura desde os seis anos de idade.

Citei a Regência e o menino Pedro II para chegar, finalmente, onde queria. Estou organizando uma visita ao Museu Imperial de Petrópolis com alguns alunos. Lá, para variar, veremos o mobiliário do Império, as coroas, o penico de Dom João VI, o berço de Dom Pedro II, pinturas, retratos e o escambau. Mas, ouso confessar, minha real intenção com o passeio é outra: - correr de pantufas, em alta velocidade, pelas salas magníficas do museu.

Sou defensor ardoroso da ideia de que o surf em pantufas deve ser considerado um esporte. Se o automobilismo, com um bando de playboys babacas dando voltas de carro, é considerado esporte, não há porque desconsiderar o caráter atlético do surf em pantufas.

Quando era moleque, adorava ir ao museu para deslizar, serelepe, entre as louças e os castiçais da família real. Ficava louco para fazer merda e quebrar aquela porra toda. Sonhava terminar a jornada mergulhando na cama em que a Princesa Isabel - uma das mulheres mais feias do mundo - e o Conde d´Eu viveram os dissabores , em se tratando dos dois, da primeira noite.

O curioso é que, quando vou ao museu, retorno com pendores monarquistas. Lembro-me que, há tempos, houve um plebiscito sobre República e Monarquia. Procurei me distanciar do museu, para que o fetichismo de percorrer a memória do Império nas fabulosas pantufas não me fizesse cometer o descalabro de abrir mão de minhas convicções republicanas.

Pensando bem, às favas os alunos. Preciso é marcar uma ida ao museu com o Edu Goldenberg, o Rodrigo Ferrari e o Cláudio Falcão. Já comecei, nesse exato instante, a planejar o evento. Sairemos do Rio-Brasília, após umas cervejas e uns maracujás, pegaremos um ônibus para Petrópolis, procuraremos lá uns botecos de categoria e, após uma dúzia de ampolas, vamos ao museu. As cervejas aguçarão nossa sensibilidade para compreender toda a riqueza do período imperial.

Munidos de portentosas pantufas, deslizaremos pelos anais da história do Brasil e simularemos, em grande estilo, dançar a valsa vienense no salão dos espelhos - o Edu e o Cláudio com a leveza bailarina que os caracteriza.

Tenho convicção que voltaremos convertidos em monarquistas ferrenhos. O duro será definir nosso candidato a rei. Os pedrinhos, luizinhos e joãozinhos da família Bragança são todos viados e não podem assumir a coroa, em nome dos valores maiores da masculinidade suburbana que cultuamos nos botequins mais vagabundos. Não seremos, jamais, súditos dessas bichas que não honram as calças dos pedros antepassados, dois exímios comedores.

Aguardem, em breve, notícias sobre a expedição aos salões da realeza.




10 Comentários:

Blogger Arnaldo disse...

Simas,

Esta foi a melhor definição de automobilismo que eu já li. Um bando de playboys babacas dando voltas de carro.

Simplesmente perfeito!

Vou plagiar descaradamente!

4:09 PM  
Anonymous Claudio Falcão disse...

Estou aguardando essa inusitada expedição.Estarei treinaando exaustivamente uns passos com patroa, aguardando esse grande dia.

Um inenarrável abraço

Claudio " pé-de-valsa" Falcão

4:38 PM  
Blogger kAiQuE® S. T. disse...

Muito engraçado!!! O Simas escreve muito! Deu show nessa história!!!

Concordo plenamente: surf em pantufas no museu imperial é demais e deve ser considerado sim um esporte.
obs.: muito mais popular e acessível do q esportes como o badminton rs, que eu só sei mesmo o nome.

4:45 PM  
Blogger Beatriz Fontes disse...

Pô, Simas... Há anos estou para ir lá, para assistir ao Espetáculo de Som e Luz que acontece de quinta a sábado, às 20h. Dizem que é muito bom. O problema é que, se eu subo a serra, acabo de internando no meu sítio em Araras... E, daí, é difícil me convencer a fazer o que quer que seja. Qualquer programação cultural perde para o pé-sujo na descida da ladeira lá de casa, com a mesa de bilhar... Mas um dia eu vou, juro!

4:46 PM  
Blogger Eduardo Goldenberg disse...

Simas, meu querido: permita-me fazer breve relato do que se passou hoje à tarde antes mesmo de eu responder, oficialmente, a seu comovente convite.

Bate meu telefone e você me diz:

- Já leste o meu blog?

- Não.

- Leia. Faço um convite público a você.

E eu, numa demonstração de afeto - a fila do banco aplaudiu - respondi:

- Simão, você é dos poucos, muito poucos, que me faz dizer ´sim´ a um convite sem nem ao menos saber do que se trata.

E desliguei (ouvi você fungando antes de desligar).

É evidente que eu aceito.

E ainda faço uma proposta.

Duas, na verdade.

Levemos o Szegeri.

E lá o coroamos.

Com aquela barba amazônica, aquele conhecimento denso, filosófico, aqueles óculos que lhe conferem um ar imperial, ela fará um bonito.

Um detalhe, ainda:

01) Pedro II, então, começou cedo a estudar, como o Prata. Vamos levar o querubim para o papel?

Beijo.

5:11 PM  
Blogger Szegeri disse...

Ô, Velho, cuidado com essa história de deslizar pelos anais...

Quanto ao rei, é moleza. Tendo falecido D. Luiz Gonzaga I e único, o trono por direito pertence, goste você ou não, ao Rei Roberto.

5:34 PM  
Blogger Luiz Antonio Simas disse...

Arnaldo, faça bom uso, porque de fato são uns babacas. E tem gente que assiste.
Gordo, eu sempre soube do seu talento para a dança, não é de hoje.
Kaique, badminton, de fato, eu desconheço. Deve ser mais babaca que o automobilismo.
Bia, quando for, por favor, me relate em detalhes.
Edu, propostas aceitas, mano. Szegeri e Prata, na cabeça.
Szegeri, deslizaremos com cuidado, sobretudo por causa dos castiçais. Agora, me diga lá: - você não apoiaria a dinastia Arantes do Nascimento?

8:45 PM  
Blogger Bruno Ribeiro disse...

Simão: o Szegeri, ne verdade, quis dizer Tarcísio Meira.

4:54 PM  
Anonymous Camilo disse...

Simas, este post me deu vontade de fazer duas coisas que nunca fiz: ir ao Museu do Ipiranga (que é aqui perto) e usar pantufas. Será que o Museu do Ipiranga é adequado à prática do surf em pantufas?

1:19 PM  
Blogger Szegeri disse...

Queridos: tanto o grande rei do futebol quanto o grande rei da beleza e do talento dramático brasileiro fariam bonitos papéis individualmente. Mas no primeiro caso, acho que teríamos possíveis problemas sucessórios no futuro - tendo em vista que o príncipe-goleiro não poderia reinar de trás das grades. Já o grande Tarcísio, além de ter gerado o príncipe Tarcísio Filho, tem já uma conhecida experiência imperial, como atestam os que já ouviram a minha modesta imitação da sua gloriosa e inimitável interpretação do grito do Ipiranga, página magna da cinematografia pátria.

7:25 PM  

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