A MORTE DE FABIÃO DAS QUEIMADAS
O poeta Fabião das Queimadas, ex-escravo, analfabeto, rabequeiro e cantador, imaginou, na hora da morte, estar assistindo aos vaqueiros Miguel e Antonio Rodrigues perseguirem o Manco Macho, touro mão-de-pau, valente e valoroso gado:
Corre a Serra Joana Gomes
galope desesperado:
um touro se defendendo,
homens querendo humilhá-lo,
um touro com sua vida,
os homens em seus cavalos.
E Fabião viu os vaqueiros, cumprindo a ordem de Seu Sabino, preparando ferrões farpados e algemas de baraúna para prender o touro brabo. E viu quando o bicho, manquejando ensanguentado, com as ancas rasgadas pelos ferrões, desafiou os perseguidores:
A Serra se despenhava
nas asas de seus penhascos
e a respiração fogosa
dos dois fogosos cavalos
já requeimava, de perto,
as ancas do Manco macho
quando ele, vendo a desonra,
tentando subjugá-lo,
mancando da mão preada
subiu num rochedo pardo.
E o touro brabo era Frei Caneca, Tiradentes, Delmiro Gouveia, Carlos Mariguela, Sepé Tiaraju, Pedro Ivo, João Candido...
Corre a Serra Joana Gomes
galope desesperado:
um touro se defendendo,
homens querendo humilhá-lo,
um touro com sua vida,
os homens em seus cavalos.
E Fabião viu os vaqueiros, cumprindo a ordem de Seu Sabino, preparando ferrões farpados e algemas de baraúna para prender o touro brabo. E viu quando o bicho, manquejando ensanguentado, com as ancas rasgadas pelos ferrões, desafiou os perseguidores:
A Serra se despenhava
nas asas de seus penhascos
e a respiração fogosa
dos dois fogosos cavalos
já requeimava, de perto,
as ancas do Manco macho
quando ele, vendo a desonra,
tentando subjugá-lo,
mancando da mão preada
subiu num rochedo pardo.
E o touro brabo era Frei Caneca, Tiradentes, Delmiro Gouveia, Carlos Mariguela, Sepé Tiaraju, Pedro Ivo, João Candido...
Num grito todos pararam,
pelo horror paralisados,
pois sempre, ao rebanho, espanta
que um touro do nosso gado
às teias da fama-negra
prefira o gume do fado.
E mal seus perseguidores
esbarravam seus cavalos,
viram o Manco selvagem
saltar do rochedo pardo.
E Fabião das Queimadas percebeu, nos silêncios da indesejada das gentes, que o touro brabo era ele, o poeta das vaquejadas, o escravo de seu Zé Ferreira, o homem que comprou, cantando, sua liberdade. E Fabião cantou, como o Manco no rochedo pardo:
"-Adeus, Lagoa dos Velhos!
Adeus, vazante do gado!
Adeus, Serra Joana Gomes
e cacimba do Salgado!
Assim vai-se o touro manco,
morto mas não desonrado!"
E na hora das incelenças, ouviu-se, no lamuriar das carpideiras, um aboio longo, comprido, de vaqueiro triste, anunciando que o poeta Fabião das Queimadas, cantor do povo, rabequeiro de feira, tinha finalmente encontrado seu Touro brabo, de olhar incendiado, no Orum misterioso das almas valentes:
Silêncio. A Serra calou-se
no poente ensanguentado.
Calou-se a voz dos aboios,
cessou o troar dos cascos.
E agora, só no silêncio
desse Sertão assombrado,
o Touro sem sua vida,
os homens em seus cavalos.
pelo horror paralisados,
pois sempre, ao rebanho, espanta
que um touro do nosso gado
às teias da fama-negra
prefira o gume do fado.
E mal seus perseguidores
esbarravam seus cavalos,
viram o Manco selvagem
saltar do rochedo pardo.
E Fabião das Queimadas percebeu, nos silêncios da indesejada das gentes, que o touro brabo era ele, o poeta das vaquejadas, o escravo de seu Zé Ferreira, o homem que comprou, cantando, sua liberdade. E Fabião cantou, como o Manco no rochedo pardo:
"-Adeus, Lagoa dos Velhos!
Adeus, vazante do gado!
Adeus, Serra Joana Gomes
e cacimba do Salgado!
Assim vai-se o touro manco,
morto mas não desonrado!"
E na hora das incelenças, ouviu-se, no lamuriar das carpideiras, um aboio longo, comprido, de vaqueiro triste, anunciando que o poeta Fabião das Queimadas, cantor do povo, rabequeiro de feira, tinha finalmente encontrado seu Touro brabo, de olhar incendiado, no Orum misterioso das almas valentes:
Silêncio. A Serra calou-se
no poente ensanguentado.
Calou-se a voz dos aboios,
cessou o troar dos cascos.
E agora, só no silêncio
desse Sertão assombrado,
o Touro sem sua vida,
os homens em seus cavalos.
ps: Fabião Hermenildo Ferreira da Rocha, o Fabião das Queimadas, morreu ao oitenta anos de idade em Santa Cruz, Rio Grande do Norte, no ano de 1928. Poeta maior da sua gente, deixou obra assombrosa sobre vaquejadas e romances de gado. A Morte do Touro Mão-de-Pau é seu canto mais famoso, tendo sido , inclusive, recriado pelo mestre Ariano Suassuna. Meus respeitos e minha vela de sete dias no altar da pátria ao poeta do povo.

3 Comentários:
Salve Simas,
Que maravilha poder ler o que você escreve tão bem...
Um abração!
Simas
Como e bom poder ler coisas escritas por você, eu choro, eu sorrio e fico feliz, por ter 63 anos e esta aprendendo coisas tão linda. Por favor escreva o que você prometeu ao Sr. Salvador. Axé
Gostei do que vc escreveu sobre Fabião, sou bisneto dele moro aqui no RN proximo a Lagoa de Velhos. Meu pai tambem é poeta criou eu e meus irmãos tocando viola.
Fabião criou o verso do Boi da mão-de-pau muito antes dele morrer, ele morreu em sua casa no sítio Riacho Fundo municipio de Lagoa de Velhos, foi vitima de uma furada de macambira em uma viajem que fez, já chegou em casa sem andar.
O nome Fabião nos registros encontrados era escrito com Pha (Phabião).
Um abraço!
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