10/01/2007

O DONO DO PRIMEIRO GOLE

Senhoras e senhores, sou um camarada convencido da absoluta falência dos modelos ocidentais de interpretação do mundo, que produzem um radical e perverso desencantamento do mesmo. O ocidente inventou os famosos "ismos" - o iluminismo, o liberalismo, o capitalismo, o marxismo, o jornalismo, o pós-modernismo...ismos pra caralho, enfim. Não vejo, aí, qualquer chance de salvação.
Sou, nesse sentido, um adepto da idéia de que os legados ocidentais , de base judaico-cristã, tem que ser negados, explodidos, dinamitados. Produzem, insisto radicalmente nisso, um mundo insosso, previsível e desencantado. Por isso mesmo, essa herança de merda gera culpa, arrogância, desejo de consumo e depressão em série. Eis o que a arrogante cultural ocidental produziu - depressivos em massa, miseráveis em série e consumidores em bando.
Eu, de minha parte, fui agraciado pelos deuses. Nasci em uma família adepta dos Orixás. Minha vó, que me criou, era uma Yalorixá pernambucana radicada no Rio de Janeiro e comandava um terreiro de Xambá na cidade de Nova Iguaçu. Para os que não sabem, o Xambá é um culto de origem nagô, como os candomblés da Bahia, fortemente mesclado com elementos bantos e ameríndios.
Eu cresci ali, fascinado pela dança magnífica dos Orixás, impressionado pela imponência dos caboclos e seduzido pelo toque misterioso dos tambores que enchiam de encantamento as minhas madrugadas.
Quando entrei para a faculdade de História, resolvi, com a arrogância clássica dos estudantes das ciências humanas - sempre se sentindo capazes de entender o mundo, compreender os anseios do povo e apresentar soluções políticas messiânicas para os males sociais - negar a religião ( o ópio do povo, ora bolas) e declarar com vigor meu ateísmo.
Mas, num momento absolutamente vazio da minha vida, reencontrei, de uma forma impressionante (um dia eu conto), o caminho da infância e o toque dos tambores. Mergulhei sem receios, fiz amigos, compartilhei da mesa farta das comidas de santo e fui consagrado, sob a condução de Ogum, meu pai, sacerdote de Ifá, reestruturando o elo de ancestralidade que a minha velha avó teceu. Esse é o meu mundo, essas são as minhas comidas, esses são os meus deuses. Eles dançam o tempo todo.
Se eu faço política? Claro que sim. Eu faço política quando canto, toco, danço, imolo animais, respeito os mistérios do rio, evoco meus ancestrais na casa de Egun e digo aos arrogantes de plantão que cultuo os deuses que atravessaram o Atlântico nos porões imundos dos tumbeiros para nos civilizar.
Orunmilá, o senhor do Ifá, o mais sábio dos Orixás , conhecedor dos destinos, determinou que assim fosse. Ogum autorizou. Obatalá, orixá da mulher que me salvou, é o dono da minha casa. Exu, meu compadre, mora na minha varanda, vive na minha esquina e me acompanha nas cervejas e batuques; ele bate comigo as palmas ritmadas no compasso do partido alto. É dele, sempre será dele, Exu Odara, o senhor da alegria, o primeiro gole de cada entardecer da minha vida.
Axé.

7 Comentários:

Blogger Diego Moreira disse...

Bonito, Simão.
Estou indo, agora, almoçar, lá no Rio-Brasília, buteco de fé.
Tenha a certeza de que o meu primeiro gole desta tarde será dele!!!
Abraço!!

12:57 PM  
Blogger Bruno Ribeiro disse...

Você há de se surpreender com um texto que estou preparando e publicarei em breve. Abraços!

1:33 PM  
Blogger Eduardo Goldenberg disse...

É, meu compadre, mas Exu vai beber sozinho, até sexta-feira, rindo pra cacete da tua cara, proibidíssimo de beber até o início do sábado, por conta de exames de esforço requeridos pelo personal trainer de sua academia. Essas porras tu não conta! Avisa ao senhor da alegria que eu faço companhia a ele, se for preciso.

3:25 PM  
Blogger Luiz Antonio Simas disse...

Diego, aproveita e traça as coradas...as coradas.
Bruno, aguardo na maior expectativa o que virá. Que diabos será? Manda bala logo, cacete.
Edu, és um canalha.Os exames foram requeridos pela Candida, que está convencida de que eu , nesse ritmo, duro pouco. Além disso, amanhã termina meu tormentoso período de quarenta e oito horas sem cerveja . Mas sexta, às dez da matina, estarei abrindo os trabalhos, com uma sede, como você diz, de beduíno no deserto. Estás convocado!!
Beijo

4:33 PM  
Blogger Diego Moreira disse...

Simão.. hoje não fui de coradas. Fui de Tutu e Calabreza acebolada. Apresentei o Maracujá pra "Sub-gerência".

Na sexta eu passo lá pra chegar junto nas coradas...

Valeu a dica, mermão!!

12:14 AM  
Anonymous Mauricio disse...

Simas,

sou agnóstico, mas, aproveitando que ja citei Jung no seu post acima, digo: e dessa volta ao si-mesmo que precisamos nesses dias.

minha admiração,
Mauricio

7:24 PM  
Anonymous mauricio disse...

Aliás, sou um dos que aguarda ansiosos você contar sobre como reencontrou "o caminho da infância e o toque dos tambores".

abraços

7:26 PM  

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