12/01/2007

IARA E OMIDAYO

Contou-me ontem o Eduardo Goldenberg uma história fascinante. Disse-me ele que a Iara, filha do Fernando Szegeri e tremenda brasileirinha , possui um cachorro de brinquedo que atende pela alcunha de Chorro, vejam vocês. Eis que um dia o Chorro perdeu, literalmente, a cabeça, transformando-se numa espécie de João Batista canino. A Iara ficou desolada.
A família, compungida com o sofrimento da petiz, mandou fazer outra cabeça para o Chorro, que ficou novinho em folha. A Iara, porém, exigiu que a cabeça antiga do Chorro não fosse jogada no lixo em hipótese alguma. Muito pelo contrário. Resultado da história - a menina dorme abraçada ao Chorro de cabeça nova mas preserva, ao lado, a cabeça antiga, velhinha, decepada, cuidada com zelo e carinho.
Caríssimos, atentem para o que direi - a Iara reproduziu, com fidelidade tamanha, um episódio fundamental da criação do homem para os Iorubás. Essa menina sabe das coisas. Explico, explico...
Ao dividir as tarefas da criação do mundo, Olorum determinou que Ajalá moldasse as cabeças humanas. Ajalá começou a dar conta da tarefa com grande afinco, moldando as cabeças no barro com precisão atenta e colocando uma por uma nos respectivos corpos. Eis porém que, em certo momento, o bom Ajalá resolveu tomar alguma coisa para relaxar, enquanto trabalhava montando os oris. O Orixá tomou foi uma tremenda carraspana, uma porranca digna de um Exu nos melhores dias.
De porre, Ajalá começou a fazer algumas cabeças completamente desvairadas, e o que apareceu de doido sobre a terra não está no gibi.
Um dos que ficou com uma cabeça da série pós-porre foi o artesão Adiaoju. Muito embora maluquete, culpa do porre de Ajalá, Adiaoju acabou se casando com uma menina bonita, Omidayo. A moça era apaixonada por ele, mesmo reconhecendo que o amado era doido de pedra.
Um dia, Olorum ordenou que Ajalá consertasse a merda que tinha feito. O Orixá veio ao mundo dos homens, o Aye, e foi recolhendo cabeça por cabeça de todos os malucos, para substituí-las pelas novas, equilibradas e muito bem feitas - Ajalá caprichou na nova leva pra limpar a barra com Olorum, naquela altura mais suja que pau de galinheiro. Adiaoju ganhou uma cabeça nova e entregou a que não seria mais usada para Ajalá.
Senhoras e senhores, a troca deixou Omidayo tristíssima. Ela tinha aprendido a amar Adiaoju com a cabeça doida, mal feita, destrambelhada, feia mesmo. E Omidayo chorou tanto, mas tanto, que suas lágrimas ameaçaram inundar a terra e destruír as plantações de inhames novos.
Oxum, mãe de Omidayo, veio ao Aye para descobrir o que estava entristecendo a filha. Ela contou - Eu tenho saudades da antiga cabeça de Adiaoju. Minha mãe, eu quero ela de volta. Ele pode ser feio ou maluco, eu não me incomodo.
E Oxum procurou Ajalá, relatando o drama de sua menina. Para salvar o planeta da inundação completa, Ajalá entregou a Oxum a cabeça antiga de Adiaoju, mas afirmou que era impossível colocá-la de volta, Olorum não iria permitir.
Oxum foi à casa de Omidayo e entregou a cabeça antiga do amado. A moça parou de chorar. Ficou um pouco triste , é verdade, quando soube que nova troca não poderia ser feita , mas nada que se comparasse ao desamparo da perda anterior.
Desde esse dia, Omidayo e Adiaoju vivem muito felizes. Na hora de dormir, porém, ela coloca ao lado a cabeça velha e, ao perceber que o amado sonha , faz cafuné na cabeça antiga até adormecer, com a nostalgia leve dos amores desbaratados.
Dizem os mais velhos que esse é o relato que explica a plenitude imensa - e por isso incompreensível - dos grandes amores.
Essa menina, a Iara, tem um tremendo coração. Feliz o homem que, no futuro, for amado pela pequenina Omidayo - águas da alegria.
Axé.

5 Comentários:

Blogger Eduardo Goldenberg disse...

Salve minha afilhada, rainha das águas que turvam dos meus olhos! O mundo tem salvação, Simão, e ainda tem Rosa na jogada pra engrandecer, embelezar e aumentar as chances do nosso exército! Saravá.

12:56 PM  
Blogger Eduardo Goldenberg disse...

Simas, querido: saiba que eu li, na íntegra, tão belo texto, para o meu mano Fernando Szegeri, de viva-voz, pelo telefone, ainda assaltado pela emoção da história...

2:25 PM  
Blogger juliana amaral disse...

caro Simas,
há tempos leio seu blog silenciosa (trazida pelas mãos do meu querido e superlativo amigo, Edu Goldenberg), e tenho de dizer que não me canso de gostar. E como os dois textos mais recentes pegaram em mim de jeito, resolvi agradecê-lo por nos fazer não esquecer das e por contar as histórias que precisamos ouvir com beleza de palavra simples e bem ordenada. E digo, porque inquieta, que os filhos são nossa redenção: a minha pequenina procura todos os dias por São Jorge e entristece quando a lua não aparece na nesga de céu que se vê da minha sacada; o maior, apesar de entender mais de computador do que eu, sabe sim rodar peão, é fascinado por roda gigante, e mais importante, não negocia afetos. Graças ao bom Deus, que, acho, ainda não desistiu.
E convido a visitar meu canto (www.ascartasridiculas.blogspot.com), mesmo tendo a certeza de que serve menos aos leitores do que o seu...
um grande abraço, e mais uma vez, obrigada.

5:42 PM  
Blogger Luiz Antonio Simas disse...

JULIANA, estou começando a me convencer da existência de uma petizada que vai nos redimir. Tomara. Obrigada a você pelo comentário gentil e já estou indo lá visitar teu canto. Grande abraço.

9:44 AM  
Blogger Szegeri disse...

Velho, acabei de ler a história para a Iara...

2:45 PM  

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