29/11/2006
Um professor precisa estar preparado para responder as perguntas mais inusitadas. Eu diria mesmo que esta é a arte maior do magistério e pode destruir as carreiras mais promissoras. Imaginem, por exemplo, a minha saia justa quando, recentemente, uma aluna me fulminou com a seguinte indagação:
- Professor, eu posso dizer que uma das medidas do Geisel para superar a crise energética foi a criação do rio São Francisco?
Ou esse diálogo absolutamente surreal:
- Professor, por que é que a partilha da África teve regras definidas no Brasil?
- Como assim?
-Não foi no Pará?
-Não entendi.
- Ué, a partilha não foi discutida na Conferência de Berlim?
- Foi...
- Então. Em Berlim do Pará.
Nestas situações, é imprescindível manter a calma. Em antanhos, a palmatória era o recurso didático indicado em questões deste porte. A moderna pedagogia sugere, porém, outros procedimentos. Em priscas eras, poderíamos mandar o aluno apontar o lápis Johann Faber número 2 e escrever mil e quinhentas vezes no caderno a resposta correta. Mas os tempos, insisto, são outros.
Em primeiro lugar, deve-se segurar o riso. Cair no chão dando soquinhos, bater com a cabeça no quadro, enfim, ter um acesso, pode criar no aluno trauma irrecuperável. Pedir demissão também não procede. Chamar o aluno de burraldino pode soar ofensivo. Besta quadrada, nem pensar. Vai que o adolescente comete o suicídio e você vai carregar a culpa mortal, arrasadora, até o fim dos seus dias. Ou então, caso o aluno pertença a uma gangue, ele pode reunir uns elementos para te enfiar a porrada.
Para mim, é fundamental agir como um gentleman. Explico. Nos dois casos acima mencionados, rigorosamente verídicos, fui de uma fleuma invejável. Quanto ao rio São Francisco, respondi:
- Não, meu amor, não foi o Geisel quem criou o rio São Francisco.
- E quem foi?
- Agora não lembro, mas foi um presidente antes dele. Talvez o Dutra...Verifico e te falo depois.
- Ahhh. Valeu, mestre.
- Disponha. Disponha.
E no diálogo seguinte:
- Não, meu querido, a Conferência foi em Berlim, na Alemanha.
- Ahhhhhhh. Achei que fosse em Berlim do Pará.
- Pois é. Mas tem duas Berlins. Igual ao Rio Grande, que tem do Norte e do Sul. Berlim da Alemanha e Berlim do Pará. Mas, para evitar confusões, é bom lembrar que Berlim, em tupi-guarani, significa Belém. Belém do Pará.
- Entendi, entendi...porra professor, tu sabe muito!
- Que é isso. É a minha obrigação. O que não vale é ficar com dúvidas.
28/11/2006
RIO NO MEU CORAÇÃO
José Bonifácio de Andrada e Silva sofria de hemorróidas. Digo isso e, tenho certeza, só não serei defenestrado por algum patriota empedernido, daqueles que admiram o caráter do marechal Castelo Branco, porque estes, os patriotas empedernidos, não me lêem. Mas, convenhamos, qual é a razão para escrever que o patriarca da independência sofria de varizes no ânus?
A resposta é mais simples do que parece. Uma das minhas humilíssimas intenções nestes arrazoados que ando escrevendo é a de exaltar descaradamente os meus heróis civilizadores particulares - sambistas, capoeiras, jogadores de futebol, quilombolas, homens do povo - e seus feitos extraordinários e, ao mesmo tempo, submeter ao ridículo os donos do poder. Que pelo menos aqui eles sejam atacados com fúria jagunça.
Vejam vocês que , outro dia, uma socialite foi assassinada no Leblon, manchando um cenário de novela do Manoel Carlos. Fez-se o caos. O Globo publica charge do Chico Caruso, tremendo mala, em que o Rio de Janeiro sangra. O Jornal do Brasil anuncia o fim dos tempos. O Jornal Nacional dedica um bloco inteiro ao crime. Fátima Bernardes chora. Willian Bonner cobra mais segurança com o olhar rútilo de um Mão Branca, o justiceiro. Artistas organizam passeatas. Autoridades fazem promessas e a polícia ocupa a Cruzada São Sebastião atrás dos criminosos.
Senhores, lamento realmente a morte da dona - é inadmissível que isso ocorra - mas putaquepariu! Eu trabalho duas vezes por semana em Campo Grande, dando aulas a alunos que tem terríveis dificuldades financeiras. Para chegar até campusca, passo por Parada de Lucas, Vigário Geral, Coelho Neto, Acari, Vila Kennedy, Manguinhos e mais uma caceteada de áreas pobres na periferia da cidade. O que acontece ali com as pessoas NUNCA será notícia de jornal ou ilustrará novela da Globo.
Alguém precisa avisar aos Carusos e Manecos da vida que a esmagadora maioria da cidade não mora no Leblon. Que a importância da vida humana não se mede pelo saldo bancário. Que um ato nefasto não será mais ou menos nefasto porque ocorreu na Zona Sul.
Quando uma criança é vítima de bala perdida numa favela, a rapaziada fecha a Avenida Brasil e faz um tremendo furdunço em protesto. Leiam os jornais no dia seguinte. O protesto é noticiado como um ato de vandalismo, coisa de bárbaros, ação de hordas ignaras. Agora, essa babaquice de ficar marchando pela paz e abraçando a lagoa Rodrigo de Freitas pode. Pobre quando protesta é vândalo; da classe média prá cima, protesto é exercício de cidadania.
Minha avó era Mãe-de-Santo de um terreiro de Xambá - o Candomblé do Recife - em Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense. Cresci passando os fins-de-semana ali, entre as louvações aos Orixás e as rodas de samba que começavam após a curimba. Nossa casa ficava na Rua Castor, no Jardim Nova Era. Na esquina havia um ponto de desova. Presunto, ali, era mato. Suspeito que continue sendo. Mas senhores, a morte na Baixada não tem conta em banco, vinte carros na garagem e cento e trinta linhas de celulares. Não vai duas vezes por ano à Europa e nem faz comprinhas na Daslu. Não comove e não dá notícia. Não faz o Chico Caruso achar que o Rio de Janeiro sangra, já que no Leblon faz sol e, nos restaurantes da moda, senhores engravatados gastam quatrocentos reais em um almocinho básico.
Seja como for, hoje acordei especialmente enfurecido com essa mídia de merda. Fui ao barbeiro e passei na banca de jornais. A capa do Jornal do Brasil é digna de nota. Parece noticiar o dia seguinte ao Armagedon. Paulo Caruso - a família é um saguão de aeroporto durante greve de controladores de vôo - caricaturou o Cristo Redentor sendo assaltado por um negrinho menor de idade. Tirem suas conclusões.
Daqui, às margens do Rio Maracanã, continuarei saudando João Cândido e anunciando as hemorróidas dos Bonifácios, sem enfiar o dedo, é claro. Tomarei minha cerveja no final de tarde e buscarei refúgio na rua do Ouvidor. Manu Bandeira, que morou na Lapa, tem um belíssimo poema sobre a Espanha, em que anuncia em versos sublimes:
"Espanha da livre crença,
Jamais a da Inquisição!
Espanha de Lópe e Góngora,
De Góia e Cervantes, não
A de Felipe II
Nem Fernando, o balandrão!
Espanha que se batia
Contra o corso Napoleão!
Espanha da Liberdade:
A Espanha de Franco , não!"
Sem um pingo de talento para a poesia, me permito, reverente ao Manuel poeta, bradar puto da vida:
- Rio do Rodrigo Ferrari,
Do Prata, do Goldenberg,
E do Janir , meu irmão.
Rio da Dani Duarte
E da nossa Folha Seca.
O Rio de O Globo , não!
25/11/2006
LEIAM EM SILÊNCIO
O hábito da leitura silenciosa, baluarte maior da civilização, só tornou-se comum no ocidente por volta do século X. Antes disso era raríssimo encontrar um leitor silencioso. Santo Agostinho confessa, por exemplo, a surpresa que teve ao conhecer Santo Ambrósio em Roma. Aliás, me permitam refazer a frase descanonizando os dois, que esse negócio de santo não é comigo.Vou reescrever o parágrafo.
O hábito da leitura silenciosa, baluarte maior da civilização, só tornou-se comum no ocidente por volta do século X. Antes disso era raríssimo encontrar um leitor silencioso. Agostinho confessa, por exemplo, a surpresa que teve ao conhecer Ambrósio em Roma. Tudo porque este tinha o estranho hábito de ler em silêncio. As leituras eram, então, feitas em voz alta. Ambrósio lia em silêncio porque achava que, desta forma, teria uma percepção mais aguda do texto e, ao mesmo tempo, evitaria certas confusões que a leitura em voz alta gerava. Vou exemplificar.
É famoso o caso da leitura em voz alta que Donato, um gramático do século IV, realizou da Eneida, de Virgílio, em praça pública. Seu colega de profissão, Sérvio, ficou puto nas calças com um erro que o Donatão cometeu. No trecho em que Donato leu collectam ex Ilio pubem ("um povo reunido de Tróia") , Virgílio escrevera collectam exilio pubem ("um povo reunido para o exílio"). Imaginem os senhores a repercussão disso. Mudou toda a estratégia dramática da Eneida. Tremenda cagada, Donato, tremenda cagada.
Amigos, fiz essa pequena digressão para falar do presidente Eurico Gaspar Dutra. É atribuída a ele uma gafe extraordinária, que, no mínimo, iguala a desastrosa leitura que Donato fez da Eneida. Atentem para o absurdo.
Dizem que o marido de Dona Santinha lia um discurso - evidentemente redigido por outra pessoa - em um comício na região pantaneira do Mato Grosso, às margens do rio Paraguai. Em certo trecho, o autor do discurso tascou a famosa frase de Julio César ao exortar o exército de Roma à travessia do Rubicão : - ALEA JACTA EST ! ( "A sorte está lançada !").
Agora, senhores, imaginem a cena. O presidente vai lendo o discurso até que esbarra no trecho em questão. Sem titubear diante da citação latina, o Marechal manda na lata, com a veêmencia de um Cícero:
- Povo de Corumbá, meu povo. Nesta terra sagrada lanço as sementes do desafio de um Brasil próspero. A tarefa é grande, mas a força do Brasileiro é maior. Vamos ousar! Vamos ousar! Sem a ousadia, não faremos nada. Como disse César ao atravessar o rio Rubicão com suas tropas (pausa e expressão dramática) : - Brasileiros, ALÁ OS JACARÉS!!!
Apontou, então, para a imensidão verde do Pantanal, onde de fato inúmeros répteis crocodilianos da família dos aligatorídeos, os populares jacarés-de-papo-amarelo, descansavam ao sol, alheios aos despautérios do homem. O povo, evidentemente, aplaudiu. Dona Santinha quase teve uma síncope com a erudição até então desconhecida do marido. Só não se comprendeu bem por que o presidente, ao exortar os brasileiros à ação, apontou para o exemplo dos sonolentos bichos pantaneiros.
Por via das dúvidas, é mais prudente, sempre, a leitura silênciosa.
23/11/2006
ALGUÉM AÍ VÊ O GALO CAMPINA?
O automóvel é a desgraça das cidades. Os amigos não sabem como tenho verdadeiro horror ao rodoviarismo suicida implementado no Brasil a partir do governo de Juscelino Kubitschek. E não falo nem dos elementos mais óbvios presentes na instalação da indústria automobilística, como o sucateamento de ferrovias e o completo descaso com o potencial hidroviário do Brasil. Refiro-me a uma mazela simbólica, o culto ao carro.
A implementação das indústrias exigia, evidentemente, um esquema de propaganda encima da idéia do carro como algo maior que um simples meio de locomoção. O automóvel foi alardeado, desde então, como poderoso objeto de consumo e símbolo de status social. O cidadão passa a ver o carro como ícone dos desejos mais profundos. Se antes o macho brasileiro orgulhava-se do pau permanentemente duro, agora valia mais a pena possuir um possante zero quilômetro. E tome brochada.
Cultuamos pilotos de fórmula 1, um negócio, cá pra nós, ridículo, como heróis nacionais. Compramos carros com velocidade máxima de 250 km/h para andar em ruas com buracos e trajetos que não permitem aventuras acima dos 60, pagamos seguros estratosféricos, poluímos o ar e corremos, ainda, o risco de padecer em um infinito engarrafamento (essa é a minha visão de inferno). Além disso, há o individualismo medonho que o automóvel estimula, como um bem particular que desqualifica o transporte coletivo. Conheço, juro que conheço, gente que nunca andou de ônibus. Tenho alunos que, dentro de um coletivo, se sentiriam tão a vontade como um Eduardo Goldenberg no Belmonte do Leblon.
Imaginemos a cidade do futuro, em que o automóvel é mais importante que o pedestre (a Barra, essa monstruosidade urbana, é assim). Não haverá esquinas, apenas autopistas cercadas por shoppings. Eu confesso que não concebo uma cidade sem esquinas e feiras-livres com um argumento irrefutável – a cidade sem esquinas e mercados populares é uma cidade abandonada por Exu. Perceberam a seriedade disso? O Homem da Rua, meu compadre, mora em cada esquina e em cada porta de buteco. Sem ele, eu me sentiria mais órfão que um personagem do Dickens. E Exu, senhores, gosta dos andarilhos.
Eu confesso, como diria meu amigo-irmão Cláudio Falcão, com inenarrável orgulho, que não nasci para dirigir veículos motorizados. Sou um motorista tão ruim, mas tão ruim, que essa consciência me permite não sofrer acidentes, já que a Mariazinha, minha tartaruga de estimação, é bem mais veloz que eu. Quem já me viu tentando estacionar sabe o que falo. Estou para o auto-motor como um Conde Drácula para o crucifixo. Não nos entendemos e nos repudiamos.
Mas deixem-me explicar porque estou escrevendo esse arrazoado contra os carros – estou ouvindo Luís Gonzaga, o Rei do Baião, único monarca que respeito além do Rei Momo, do qual sou súdito confesso. Certa vez um aluno perguntou se eu achava que “Caminhando”, do Geraldo Vandré, era a maior música de protesto político da história do Brasil. Eu respondi categórico: - Não. A maior canção de protesto que o mundo conhece, a mais revolucionária, superando inclusive o hino da Internacional Comunista, é Estrada de Canindé, letra de Humberto Teixeira e melodia do gigante do Araripe, o velho Lua.
Mas deixem-me explicar porque estou escrevendo esse arrazoado contra os carros – estou ouvindo Luís Gonzaga, o Rei do Baião, único monarca que respeito além do Rei Momo, do qual sou súdito confesso. Certa vez um aluno perguntou se eu achava que “Caminhando”, do Geraldo Vandré, era a maior música de protesto político da história do Brasil. Eu respondi categórico: - Não. A maior canção de protesto que o mundo conhece, a mais revolucionária, superando inclusive o hino da Internacional Comunista, é Estrada de Canindé, letra de Humberto Teixeira e melodia do gigante do Araripe, o velho Lua.
Transcrevo a letra, que dispensa comentários:
Automóvel lá não se sabe
se é hômi ou se é muié
quem é rico anda em burrico
quem é pobre anda a pé.
Mas o pobre vê nas estradas
o orvalho beijando a flô
vê de perto o galo campina
que quando canta muda de cor.
Vai molhando os pés no riacho
-que água fresca, Nosso Senhor-
Vai olhando coisa a grané
coisas que prá mode vê
o crsitão tem que andar a pé.
Ai, ai, que bom
Que bom, que bom que é
Uma estrada e uma cabocla
e a gente andando a pé.
Ai , ai , que bom
Que bom, que bom que é
uma estrada e a lua branca
no sertão de Canindé.
Eis, meus amigos, a nossa Marselhesa!
22/11/2006
A MORTE DO MANGANGÁ
Nascido Manoel Henrique, nos idos de 1897, filho de João Grosso e Maria Haifa, aprendeu desde cedo as poesias do corpo. Santo Amaro lhe conheceu a fama. Versado nas artimanhas, foi ajudante de saveiro, amolador de facas, fuzarqueiro e, mais que tudo, mestre nas mandingas da volta ao mundo.
Filho de Ogum, foi com Tio Alípio, preto velho centenário e ainda belicoso, que aprendeu as rasteiras e os caprichos dos rabos-de-arraia. Fez fama e tostões na feira, exibindo as destrezas ao toque do berimbau de cabaça. Quem não lhe aprouvesse, que procurasse outro mundo, ainda mais se fosse polícia. Desses, só queria saber de rodopiar e mandar a perna, surrupiando da gravidade o que se supõe certo. Só não era esse arengueiro todo quando procurava na cachaça e na zona, no colo de Rosalina, os remansos do descanso.
Foi, por alcunha, consagrado Besouro. Êh, Besouro! E logo Mangangá, que é bicho brabo e cascudo. Falavam isso porque, atarracado como o inseto, era, porém, uma leveza só quando voava. Besouro nos ventos, Besouro nas formosuras.
Diziam que o corpo era fechado. A rezadeira garantiu proteção contra bala e todos os tipos de armas, excessão feita à faca de tucum, que prá essa não se sabe de mandinga. Mas queria era morrer voando. Necessitado, porém, de uns tostões mais certos, pousou e buscou emprego numa fazenda. Era a hora do descanso das arengas. Mas Besouro parado é Besouro nas agonias.
Lá, na fazenda, arrumou arruaça logo com o filho do patrão. Foi mandado embora, com o consolo de levar uma carta de recomendação ao dono de uma usina próxima. Mas Besouro não sabia ler. O patrão pedia na missiva que o usineiro desse um jeito de matar o Mangangá, para proteger seu filho. Besouro foi o portador da sua própria sentença. Êh, Besouro Preto, êh! meu camará.
Contam que foi na tocaia, com mais de 40 homens. Dizem também que Besouro passou todos na rasteira. As balas zuniam e não atingiam o capoeira. Besouro voava e ria, que o bom da vida eram esses arrebatamentos. Mas havia um cabra com uma faca de tucum. Quem viu, não conta. Quem conta, não viu. Há, porém, quem jure que o vento soprou como se fora um lamento de berimbau. O corpo pousou no chão após uma ligeira ginga.
Mangangá não chegara perto dos 30 anos. Uns falam que tinha 23, outros arriscam 27. Mas a vida, camará, se mede é pela intensidade, que quantidade é tolice nossa, de gente que tem medo de tomar rasteira. A idade de Besouro é o tempo da volta ao mundo.
Axé
20/11/2006
ZUMBI DOS PALMARES
Veio da noite profunda e do ventre maldito dos tumbeiros. Cruzou a Calunga Grande e, das entranhas da dor, vislumbrou nos céus de Tupã a mesma estrela a anunciar o retorno à Aruanda ancestral, a terra sem males do Morubixaba, seu irmão na mesma sina e guerreiro da mesma guerra.
Com ele, por ele, Nzazi veio batendo seu tambor, Dandalunda abençoou as águas, Lembarenganga amenizou o frio e Vunji manteve na escuridão o sorriso da criança. Oxóssi lhe deu um embornal de flechas certeiras e Ogum, seu irmão, abandonou o arado e ergueu a espada de Marechal de Campo. De Logunedé, o caçador menino, pedra de rio fundo, recebeu a dádiva maior do canto. Olorun, Zambiapongo, lhe deu um samburá de melodias.
Jogou a capoeira escondido pela vastidão de um mar de sambaíbas, arrepiou São Bento Grande e deu volta ao mundo. Gritou machado pro jongueiro velho e pediu licença aos catimbozeiros encantados. Foi ferido, quase de morte, mas resistiu como junco que não quebra. Optou pela luta contra a intolerância e o preconceito e, com seus guerreiros de fé, criou o Quilombo.
Ergueu o brado de liberdade, o mesmo que cavalgou o vento desde a serra da Barriga e berra ainda nos nossos ouvidos acomodados. Sentou em trono de rei, ergueu altaneiro o olhar que até hoje desafia e morreu lutando. Não humilhou a ninguém, não foi humilhado. Vitorioso, fulgura como ancestral maior no firmamento da Grande Noite, na memória do tempo. O dia de hoje, 20 de novembro, é dele.
Com a coité e a cuia no embornal, ofereço o primeiro gole ao guardião das esquinas, Homem da Rua, e deixo aqui, com as bençãos dos mais velhos, gravado o nome do Quilombola maior, mártir de todos os Palmares e vivo, profundamente vivo, em cada toque de tambor:
- Antônio Candeia Filho.
Axé.
18/11/2006
ZUMBI NA VOZ DO ANESCAR
Não há nada mais triste para um carioca do que sentir-se exilado em sua própria cidade. Digo isso porque é exatamente essa a sensação que tenho toda vez que compromissos profissionais - aulas e mais aulas - me obrigam a visitar o bairro da Barra. Local meio estranho, sem esquinas, sem botecos, repleto de casas comerciais com nomes em inglês, projetado para o deleite dos automóveis, não merece carregar no nome o sacrossanto epíteto de Barra "da Tijuca". Da Tijuca, que eu saiba, são o Eduardo Goldenberg, tombado em vida e no meu coração como patrimônio imaterial da cidade, e o Rodrigo Ferrari, o comerciante de carioquices que mais fez pelo Rio e por mim desde o Barão de Mauá.
Para exorcizar esse encosto de Miami que vez por outra me persegue, quero lhes contar uma história que tem como cenário um bairro carioquíssimo - São Cristovão, terra que viu nascer dois brasileiros máximos, D. Pedro II e Bruno Ribeiro.
Ali, pertinho do pavilhão, há um edifício desgastado pelo tempo que, para o bem da cidade, deveria ser imediatamente declarado patrimônio público, com placa na entrada e o cacete. Neste local trabalhou, como zelador e porteiro, o grande Anescarzinho do Salgueiro. Humilde, sempre modesto, Anescar parecia não ter a consciência da grandiosidade de sua figura para a história do samba carioca. Foi ele um dos nossos heróis civilizadores.
Anescar compôs, com Noel Rosa de Oliveira, os antológicos Quilombo dos Palmares (1960) e Chica da Silva (1963), além de ter participado do show Rosa de Ouro , que lançou Clementina de Jesus. É mole ou quer mais ? Fez parte, ao lado de Paulinho da Viola, Nelson Sargento, Jair do Cavaquinho e Elton Medeiros, do grupo Cinco Crioulos , que marcou, apesar da curta duração, a história do samba.
Um dia um sujeito qualquer - com poucos cabelos que anunciavam a futura calva - soube que o Anescar era porteiro do tal prédio. Foi até lá para saudar o baluarte. Aproximou-se, tocou o interfone e perguntou pelo Anescarzinho do Salgueiro. Extremamente tímido, Anescar apresentou-se e saudou o fã. Parecia quase constrangido com a deferência. Não tinha, definitivamente não tinha, a noção do que representava para a música brasileira. O autor de Chica da Silva, para alguns o maior samba da história da academia tijucana, trabalhava anônimo e silencioso nas proximidades da Quinta Imperial. Será que os moradores daquele prédio tinham consciência da honra absoluta que o destino lhes reservara? Sabiam quem era aquele porteiro que morreu pobre de marré de si e sem o devido reconhecimento? Temo que não.
Lembro do Anescar porque hoje é dia 20 de novembro, dia da Consciência Negra e marco da resistência maior de Zumbi dos Palmares. Ouço, como um brado magnífico de liberdade, a obra-prima que Anescar compôs para saudar os guerreiros da serra da Barriga e imagino que nenhuma homenagem que se faça ao quilombo superará em beleza o desfile salgueirense de 1960. Meninos, eu não vi, mas como queria ter visto.
É por isso que acendo minha vela de sete dias no altar da Pátria ao grande Anescarzinho do Salgueiro. Lá, na Aruanda ancestral, imagino que, neste dia 20, o capitão palmarino estará comovido com as homenagens que seus herdeiros de luta farão em todo Brasil. Imagino, também, que Zumbi olhará para o lado e dirá ao seu companheiro no Orun misterioso das almas:
- Anescar, canta de novo o meu samba, canta.
Saravá!
17/11/2006
UMA LADAINHA E UM SILÊNCIO
Antônio Beatinho não aguentava mais. O cerco do exército ao Arraial do Belo Monte, no sertão de Canudos, chegava ao seu momento mais intenso. Cerca de 400 homens, mulheres, crianças, velhos e mutilados, sitiados por mais de 3.000 militares, sucumbiam às mazelas da sede e da fome. O Conselheiro havia morrido poucos dias antes e os homens do poder pareciam não se contentar com a simples rendição do arraial.
Beatinho saiu do esconderijo balançando uma improvisada bandeira branca e se dirigiu ao comandante das forças militares que combatiam o povo de Canudos, o general Arthur Oscar. Avisou a ele que cerca de 300 sertanejos estavam dispostos a desistir da refrega, em troca, apenas, de um tratamento digno às mulheres, crianças e velhos que estavam entre eles. O general aceitou as condições colocadas pelos derradeiros combatentes do sertão.
Conforme o combinado, o Beatinho se entregou. Um acordo de cavalheiros parecia, finalmente, instaurar um rasgo de sanidade nas lonjuras do sertão da Bahia. O código de honra das justas medievais, tão presente no sertão armorial e seguido pelos jagunços do beato Conselheiro, trazia ao Beatinho a certeza de que o compromisso com a autoridade republicana seria respeitado. O general dera a ele a sua palavra de homem.
O final desse episódio, amigos, é elucidativo do caráter e da sanha dos poderosos na história do Brasil. Os cerca de 300 sertanejos foram sumariamente degolados, em nome da República e da civilização. Não foram poupadas, sequer, as mulheres e crianças. A instauração da ordem, nas palavras demenciais das autoridades republicanas, estava garantida, contra a barbárie jagunça.
Por falar em barbárie, ao final da guerra o corpo do líder de Canudos , Antônio Conselheiro, foi desenterrado e o cadáver submetido à degola. A cabeça foi enviada à Escola de Medicina da Bahia, onde o doutor Nina Rodrigues, sabichão da época e ardoroso defensor dos progressos da ciência, a analisou para detectar indícios de debilidade mental na configuração da caixa craniana. Nada de anormal foi detectado. Em 1905, um incêndio destruiu a faculdade e o fogaréu consumiu a cabeça do beato.
Horas antes de morrer, Antônio Conselheiro deixou escrita uma mensagem ao povo humilde do sertão, que considero um dos mais belos testamentos que um homem logrou redigir:
"É chegado o momento para me despedir de vós; que pena, que sentimento tão vivo ocasiona essa despedida em minha alma, à vista do modo benévolo, generoso e caridoso com que me tendes tratado, penhorando-me, assim, bastantemente. São estes os testemunhos que me fazem compreender quanto domina em vossos corações tão belos sentimentos! Adeus povo, adeus aves, adeus árvores, adeus campos, aceitai a minha despedida, que bem demonstra as gratas recordações que levo de vós, que jamais se apagarão da lembrança desse peregrino."
Amigos, meditem, por favor, nas palavras do Conselheiro e me digam quem era o maluco nessa história toda.
Conto esses episódios, pouco mencionados, sobre a Guerra de Canudos para reafirmar meu compromisso com uma certa perspectiva a respeito da História do Brasil. Não me seduzem as descrições e as análises sobre feitos espetaculosos e grandes efemérides. Me interessam, isso sim, os dramas silenciosos dos homens comuns. Um pênalti perdido em uma pelada de subúrbio pode falar mais a respeito da humanidade do que todas as conquistas napoleônicas. A tragédia de Antônio Conselheiro, de Antônio Beatinho e dos camponeses anônimos do Belo Monte revela mais sobre o Brasil do que os feitos de imperadores, presidentes e generais.
Antônio Conselheiro, Antônio Beatinho e outros 10.000 sertanejos padeceram. Da imensa maioria a história não guardou os nomes ou imagens. Em meio a uma tragédia coletiva, despontavam, silenciosos, milhares de dramas pessoais, intransferíveis e indizíveis em suas dores. Daqui, às margens do rio Maracanã, longe demais do Monte Santo, presto reverência aos jagunços do Vaza-Barris, como se cantasse a ladainha que não sei.
13/11/2006
PARA TODAS AS FLORES DA NOITE.
Não sou adepto de uma história que priorize a apologia dos grandes feitos e a biografia dos grandes heróis. Não me convence e não me seduz. Serei mais claro. O que se passou, por exemplo, durante a República Velha na zona do Mangue, entre garrafas de cerveja , conhaques vagabundos e delírios suicidas de velhas putas, me interessa mais que as tramóias urdidas nos gabinetes presidenciais, abastecidas, diga-se de passagem, por litros de café-com-leite e cafetinas de luxo.
Fiz referência ao Mangue para falar de um evento épico, a Revolta da Chibata de 1910, e de um personagem mais épico ainda. Não, meus caros, não me refiro ao grande marinheiro João Candido, o líder do movimento contra os castigos corporais na marinha de guerra do Brasil. Desse falarei em breve, e em tom descaradamente apologético. Basta, por enquanto, dizer que meu time de botão chama-se Esporte Clube Marinheiro João Candido, evidente sinal do que sinto a respeito do mestre-sala dos mares.
O personagem em questão, ou melhor, a personagem em questão, atende pela alcunha de Flor da Noite. Isso mesmo. Flor da Noite era o nome de guerra de uma das prostitutas do Mangue que aderiram aos rebeldes do mar. Devo ressaltar que uso aqui o termo prostituta com o mesmo respeito que Lampeão devotava ao padre Cícero, de forma contrita e com admiração passional.
Quando a revolta dos marinheiros explodiu e as balas dos canhões começaram a zunir pela Guanabara, as distintas famílias da elite carioca mergulharam no pânico mais profundo e zarparam em direção à serra fluminense. As camadas populares, porém, manifestaram claríssima adesão ao furdúncio promovido pela marujada. Assim que se espalhou pela cidade a informação de que os rebeldes talvez estivessem sem mantimentos para manter a rebelião por muito tempo, houve fabulosa mobilização para abastecer os insurretos com frango assado, farofa e cachaça. Tudo isso em quantidade suficiente para matar de inveja os apóstolos que escreveram sobre o milagre cristão da multiplicação dos peixes.
Foi nesse clima de mobilização popular que algumas meninas do Mangue resolveram prestar a contribuição da zona ao movimento. Demonstrando um espírito de liderança fora do comum, Flor da Noite - como uma Ana Néri do baixo meretrício - lembrou-se de uma máxima das sagradas escrituras. Nem só de pão vive o homem. Os marujos precisavam da garantia de que poderiam, também, saciar os prazeres impronunciáveis da carne. A boa e velha sacanagem.
Imaginem a cena. As meninas do Mangue rumam ao cais do porto com a altivez magnífica das grandes revolucionárias e fazem chegar ao comandante-em-chefe da esquadra do povo, nosso João Candido, a garantia de que os serviços do Mangue estariam colocados a disposição dos marinheiros em caráter permanente e, evidentemente, gratuito. É o momento mais digno da história do Brasil desde a resistência épica de Palmares, nos idos do século XVII.
Ilumino com mil velas de sete dias o altar da pátria, em louvor permanente e absoluto às meninas - muitas delas velhas e acabadas, mas sempre meninas - que, lideradas pela Flor da Noite, cerraram fileiras ao lado dos rebeldes da Guanabara. São elas, e não as milionárias escrotas e criminosas da Daslu ou as anoréxicas modelos que infestam o nauseante mundinho (de merda) da moda, que ficarão como exemplos maiores das mulheres do Brasil. Por elas, e para elas, abrirei comovido a primeira cerveja do dia, às margens do rio Maracanã e do meu imaginário cais.
11/11/2006
INSTINTO ASSASSINO.
Amigos, acordei disposto - são seis horas da matina - a falar sobre um personagem da nossa história que me fascina profundamente por um motivo prosaico - o nome de batismo. Vejam se não estou coberto de razão: Cristino Gomes da Silva Cleto. Que beleza, que beleza. Uma sonoridade jagunça, daquelas que fazem o sujeito nascer fadado ao épico. Falarei dele.
(...)
Nada como um parágrafo após o outro. Esqueçam o que escrevi acima, pois acabo de mudar de idéia. Não falarei mais do sonoroso personagem. Vamos ao novo tema.
Estava outro dia trocando figurinhas virtuais com o Bruno Ribeiro. Bruno é figura ímpar, recomendado pelo meu irmão Eduardo Goldenberg, jornalista e, observem o caráter impoluto do malandro, devoto do São Cristovão de Futebol e Regatas - ele nasceu no bairro imperial da Zona Norte carioca e mora em Campinas. Recebi informações fidedignas de que, quando esteve recentemente por essas bandas, Bruno tomou três litros de maracujá no Rio-Brasília, venerável pé-sujo tijucano, na companhia do Edu.
Como ia dizendo, ao trocar mensagens com o Bruno, recordei-me de inusitado episódio que quase terminou com meu recolhimento a uma casa de detenção para meliantes de alta perículosidade.
O motivo para o imbróglio com os homens da lei foi simples e nobre como a campanha de prevenção ao câncer de mama : eu tive ímpetos de matar o ex-cantor Agnaldo Timóteo. Vamos aos fatos.
Recentemente coloquei no meu perfil do orkut - uma merda, mas que tem lá sua utilidade se não for levado a sério - uma foto de um porco sorrindo. Nada mais escroto. Ou quase. Indignadas, algumas alunas me impeliram a tirar a imagem do leitão sorridente do site de relacionamentos (vocês não sabem com que escárnio eu utilizo essa medonha expressão).
Cedi, após curta consulta aos meus escrúpulos, aos apelos das mancebas. Disse, porém, que iria colocar uma foto tão, mas tão mais medonha que a do porco, que elas clamariam insones pela volta do mamífero artiodátilo da infra-ordem dos suínos.
Não precisei pensar cinco minutos. Ninguém é mais abjeto que o Agnaldo Timóteo. Logo, caberia a ele a primazia de substituir o porquinho que arrepiou as moças. Coloquei, pois, a imagem venal na tela. O Bruno, desconhecendo a história, julgou que eu fosse fã do Timóteo. Logo dele, o único sujeito no mundo que me despertou efetiva gana homicida. Conto como foi.
Estava no Maracanã na noite em que o Botafogo perdeu do Fluminense por inacreditáveis 7X1, no ano da graça de 1994. Uma tragédia, um verdadeiro Waterloo do bonapartismo alvi-negro. No estádio também se encontrava o Agnaldo Timóteo. Diz ele que é botafoguense, mas eu prefiro - prefiro não, eu preciso- não acreditar nisso.
Acompanhado por alguns capangas, o biltre malufista furou, com uma cara-de-pau que poucas vezes presenciei, a fila para entrar no elevador que leva às cadeiras especiais. Eu e dois amigos prontamente protestamos com vêemencia. O doublê de cantor e protozoário veio com dedo em riste na nossa direção dizendo os maiores impropérios, que incluiram o indefectível "vocês sabem quem eu sou?".
Homi-rapaz, o tempo fechou. Prontamente o Luís Flávio, colega de faculdade e brizolista aguerrido, respondeu ao beócio gatuno : - Sei. Você é o merda do Agnaldo Timóteo. Malufista, traidor e safado.
Queridos, o valente-prás-tuas-nêgas do Timóteo partiu ensandecido, acompanhado dos capangas, para cobrir a gente de porrada. Os seguranças da Suderj conseguiram conter o furdúncio, mas o verme exigiu a presença da polícia com uma arrogância que, confesso, nunca vi igual. E falo, nesse momento, com extrema seriedade.
No fim das contas o fuzuê foi controlado, não sem antes o babaca repetir um milhão de vezes que era o Agnaldo Timóteo e não levava desaforo prá casa.
Contei esse rápido episódio para, me permitam, acender hoje a minha vela no altar da pátria ao Luís Flávio. Graças a ele, tenho no meu modesto currículo a honra máxima de ter sido ofendido pelo Agnaldo Timóteo, legitimo representante de um Brasil reacionário, deselegante, truculento, arrogante e venal. Um verdadeiro Sérgio Paranhos Fleury - esse monstro - da pior música brasileira. Tremendo cleptotenor.
Digo, também, que ali percebi que o mais pacato dos seres, e eu me considero um homem pacífico, é capaz dos instintos mais primitivos e dos desejos mais perversos em situações limites. Eu, de fato, senti incontrolável vontade de dar um tiro nos cornos do sujeito. Faltou-me, tenho que admitir, não a coragem, mas a arma.
09/11/2006
SALVE LINDO PENDÃO DA ESPERANÇA
Um desengano dói, a minh´alma tanto sente. É assim, pungente, dramático, que começa um samba de Aniceto, gravado pelo grande Monarco em um L.P. magnífico de 1976. Capa do mestre Lan, participação da Velha Guarda da Portela e lendas como Dino, Marçal, Jorginho, Abel Ferreira, Wilson das Neves e o escambau segurando cordas e ritmos. Obra-prima! Obra-prima!
Ouvi ontem esse disco, em minha gloriosa vitrola da qual não abro mão em hipótese alguma, e lembrei-me, com precisão, de um dos maiores desenganos da minha vida. Diz respeito a um entrevero que tive com uma professora relacionado ao pavilhão da pátria, a gloriosa bandeira do Brasil. Explico melhor.
Estava eu, em tempos idos, assistindo a uma aula de Estudos Sociais, quando a professora falou da necessidade do amor incondicional aos símbolos da pátria, especialmente ao auri-verde pendão do poeta. Fez então, a megera, uma pergunta fatal:
- A estrela que está acima do Ordem e Progresso representa que estado do país?
E eu, altaneiro, augustíssimo da paz e certo da resposta, bradei com a autoridade de um caboclo de umbanda:
- É o Pará!
E ela, em um ataque de pelanca clássico, me fuzilou com o peso inclemente da tirania:
- É o Distrito Federal! É o Distrito Federal!
Amigos, a mulher babava. Praticamente me agrediu. Minha resposta gerou uma catarse inacreditável na possuída mestra. Descabelada, dando socos no quadro, afirmou que não aguentava mais dar aulas a um peste como eu, um endemoniado (palavras dela), mal-criado e futuro marginal. Admito que meu comportamento em sala não era exatamente exemplar, mas ela exagerou. Me senti a última das crianças, um patinho feio antes de virar cisne.
(Pausa. Esse cisne da frase acima é o Capororoca, o famoso cisne-branco-brasileiro. Esse negócio de cisne europeu é coisa de viado.)
Guardei, humilhado, a afronta, e por conta disso tive sérios problemas em respeitar a bandeira do Brasil. Era ver o estandarte desfraldado e o esporro da apoplética mestra rugia nos meus ouvidos.
Meu avô, que havia me garantido que a estrela representava o Pará, tentou me consolar de todas as formas, inclusive afirmando com delicadeza nordestina que a professora era, além de burra, uma vaca. E eu, amigos, duvidei do meu velho e cheguei a acreditar que ele tinha se enganado. A estrela devia mesmo representar a porra do Distrito Federal. Ele não disse nada.
Eis que o tempo passou e o velho cantou para subir. Morreu manso, ele que sempre foi esporrento. Não deixou herança em dinheiro ou imóveis ( prova irrefutável de caráter e dignidade) mas legou aos seus uma caralhada de coisas aparentemente inúteis, como flâmulas de clubes, moedas da época do Império, albúns de figurinhas incompletos, um chicote de cangaceiro e uma bandeira magnífica do Brasil, enroladinha como ela só. Dentro da bandeira, protegida, uma cartilha da época do Estado Novo com a explicação completa , minuciosa , sobre a bandeira nacional. Sabem o que a cartilha diz?
Afirma que a bandeira foi proposta pelo intelectual positivista Teixeira Mendes, com apoio do astrônomo Manuel Pereira Reis e do artista Décio Vilares. A posição das estrelas no lábaro representa o céu do Rio de Janeiro às 8:14 minutos do dia 15 de novembro de 1889, data e hora da proclamação da República, equivalente a 12 horas siderais - e já adianto que não faço idéia de que porra é essa de hora sideral.
Diz ainda que cada estrela representa um estado. E, vejam vocês, que a única estrela acima da faixa com Ordem e Progresso é a Spica, representando o estado do Pará, único que, na época da proclamação, tinha a maior parte do território acima do Equador.
O Distrito Federal, queridos, é representado pela Sigma do Oitante, que fica próxima ao pólo celeste, o que faz com que todas as estrelas visíveis nos céus do Brasil façam um arco em torno dela. E a Sigma está abaixo do Ordem e Progresso. Acima só está o Pará, cacete!
O dia da bandeira se aproxima, salve ela, e, em homenagem ao velho, vou repetir insistentemente, com a obsessão de um João Batista no deserto, que a única estrela acima da faixa do lábaro representa o Pará. Distrito Federal de cu-é-rola.
Aproveito o ensejo e clamo ao poder público (entendam o simbolismo do gesto. É óbvio que não sou lido por nenhum representante do poder público) que troque imediatamente o trapo que está desfraldado na praça da Bandeira, pertinho da minha casa, por um pavilhão novo, bonito, decente.
Botem, por favor, uma bandeira nova na praça, para que eu possa olhá-la com orgulho quando parar no ponto onde pego o ônibus para trabalhar. E, mais do que isso, para que eu possa perguntar a todos - ao mendigo, ao garçom, ao trocador do ônibus e ao camelô que me fornece pilhas e formicidas - com a firme convicção de quem possui a verdade revelada:
- Sabem qual é o estado representado pela solitária estrela?
Axé.
07/11/2006
SOU UM JAGUNÇO
Os antigos tinham o hábito de abrir aleatoriamente uma página da bíblia para fazer uma leitura qualquer. Acreditavam que ali estaria uma dica que iluminasse a vida do cidadão. Explico e exemplifico. Há um trecho do Novo Testamento em que, nas bodas de Canaã, Cristo transforma água em vinho. Aliás, justiça seja feita ao Nosso Senhor, em um vinho de primeiríssima qualidade, a se acreditar nos relatos apostólicos. Faço um parágrafo em virtude da sacralidade do tema.
Em certa ocasião, meu avô, o velho Luiz Grosso, resolveu apelar para as sagradas escrituras. Com o objetivo de resolver um problema qualquer, abriu o livro santo exatamente neste trecho. Não teve dúvidas. Dirigiu-se ao botequim mais próximo, encheu a moringa e voltou para casa feliz da vida. Diante do olhar enviesado da minha avó, usou o inquestionável argumento de que cumpriu apenas determinações advindas do Filho do Homem. Na falta do vinho, encarou a água-que-passarinho-não-bebe e ficou de bem com a existência.
Faço essa introdução para dizer que ando praticando algo semelhante com o Houaiss. Abro o dicionário de forma aleatória e encontro palavras que me dizem algo especial. Agora, por exemplo, calhou de cair na letra J. A primeira palavra que li foi Jaguaracambé, termo que designa o cachorro-do-mato-vinagre. Por mais que me esforce, não imagino qualquer relação entre a minha vida e o animal em questão. Antes que, obcecado, eu conclua com certeza resoluta que os deuses querem que eu crie um bicho desses, passo batido. Ignoro o canino temperado e prossigo a pesquisa.
Mais abaixo, na mesma folha (página 1669), vejo o termo jagunço. Está lá que jagunço designa "cangaceiro, criminoso, foragido ou qualquer homem violento contratado como guarda-costas por indivíduo influente" ou então "seguidor de Antônio Conselheiro, chefe religioso da rebelião de Canudos".
Prefiro, mil vezes, o segundo sentido. Quando penso em jagunços, louvo imediatamente os guerreiros do beato Antônio Conselheiro, homens que combateram o latifúndio e os poderosos da República, em defesa da posse comunitária da terra e da fraternidade entre os homens.
Jagunços me remetem ao belo samba-enredo da gloriosa escola de samba Em Cima da Hora. A pequena agremiação desfilou em 1976 com o tema Os Sertões, louvando Euclides da Cunha e os sertanejos do Conselheiro. Os componentes cantaram um dos mais fortes refrões da história dos desfiles:
"Os jagunços lutaram
Até o final
Defendendo Canudos
Naquela guerra fatal..."
A escola desfilou debaixo de um tremendo temporal e foi a última colocada. Não interessa minimamente. O samba, de Edeor de Paulo, ficará para todo sempre. Aliás, estou cagando para quem ganha ou perde o desfile. A competição não me comove. O que fica é a imortal rapsódia de louvor aos guerreiros. O resto é mistura de titica e purpurina.
Declaro, pois, que só usarei o termo jagunço para louvar os homens de Canudos. Desde já me considero para todo o sempre um deles. Quando ouvir falar, por exemplo, dos jagunços do Sarney e do ACM, vou imediatamente bradar : - Jagunços não! Jagunços foram os combatentes de Canudos. Estes, que vocês denominam jagunços, são apenas serviçais de velhos coronéis.
(Neste exato momento, embalado pelo texto e pelo samba, acabo de riscar do Houaiss a primeira designação, que para mim não será de nenhuma valia.)
Acendo, contrito, no altar da Pátria, minha vela de sete-dias aos combatentes do Sertão. Louvo também a todos os componentes da G.R.E.S Em Cima da Hora, do glorioso subúrbio carioca de Cavalcante. Eles , que desfilaram enfrentando o temporal e sofreram com a queda da escola - em evidente referência ao massacre do arraial - , cantaram o mais épico dos sambas.
Neste episódio, amigos, reside a diferença entre a glória e a vergonha, entre a derrota que eleva e a vitória que amesquinha. Uns perdem louvando Canudos. Outros, vivem dando pulinhos de alegria em homenagens a Poços de Caldas, Caetano Veloso e Chico Recarey. Sou um jagunço.
Axé.
03/11/2006
ODE AO HERÓI.
Dia desses uma revista semanal fez uma enquete sobre quem teria sido o maior brasileiro da história. O vencedor, acreditem, foi o médium Chico Xavier. A despeito da imbecilidade da pesquisa e, me desculpem mas não sou politicamente correto, da cretinice do resultado final, fiquei imaginando o que responderia se um entrevistador me fizesse a mesma indagação. Pensei e concluí com uma certeza inquebrantável. Eu diria com firmeza fulminante e exclamatória : - João Cantuária !
Ele mesmo, o mineiro de São João Del Rey que foi fundador e atleta símbolo do São Cristovão de Futebol e Regatas. Quem o viu jogar afirma que Cantuária foi um gentleman dos gramados. Ao mesmo tempo, defendia o São Cri-Cri com uma ferocidade assombrosa. Seu guarda-roupas era composto apenas de camisas, cuecas, calças, pijamas e meias brancas, pois Cantuária afirmava que não concebia vestir qualquer peça de roupa que não lembrasse o uniforme do time de coração.
Foi campeão do torneio início de 1918, legendário título do portento da Figueira de Melo, e teve uma morte precoce e épica, só comparável em beleza e dramaticidade ao martírio maior de Tiradentes e aos assassinatos de Zumbi dos Palmares e Carlos Mariguela, esses brasileiros máximos.
Cantuária foi vitimado pela gripe espanhola aos vinte e quatro anos de idade. Já com os sintomas da gripe bastante avançados - e sentindo a inexorável presença da indesejada das gentes - o ídolo fez questão de entrar em campo para defender o São Cristovão em um jogo sem importância contra o Bangu. Declarou que a possibilidade de morrer não o eximia minimamente do dever e do prazer maior de defender o pavilhão cadete. Faleceu dezenove dias após a partida. No leito de morte, o médico perguntou se Cantuária tinha algum recado a passar a familiares e amigos. Disse que não. Só pediu que mandassem um recado aos jogadores do São Cristovão: - Não podemos perder a próxima partida. (Que, aliás, foi contra o meu Botafogo.)
Não sei quanto foi o jogo seguinte ao falecimento. Aliás, nem quero saber. Imagino essa lendária partida como a última batalha do El Cid. Nos meus sonhos, o São Cristovão venceu e Cantuária foi o guerreiro que, mesmo morto, marcou o gol da vitória. Não ousem me desmentir.
Quando Lamartine Babo compôs posteriormente o hino do clube, não deixou de homenagear o homem e a lenda:
"São Cristóvão, São Cristóvão,
Teu passado é tão belo
Quantas vitórias em Figueira de Melo.
Quando vences outro clube
Oh ! São Cristóvão pertences
Aos corações são-cristovenses.
Estimulam sua fibra extraordinária
Os grandes feitos do saudoso Cantuária.(...)"
Digo isso, amigos, com seriedade - o assunto não comporta piadas - para lamentar a morte da honra e da valentia nos gramados e na vida. Não há mais Cantuárias. O que vemos são jogadores descompromissados com o clube, desconhecedores de que vestir uma camisa é exaltar a valentia dos seus vivos e honrar a memória dos seus mortos. A camisa de um clube é uma farda que deve ser envergada com o compromisso e a dignidade das consagrações da cavalaria andante.
Esses merdas, milionários e escrotos, não tem a dimensão da epopéia e o sentido trágico da vida que marcou o martírio de João Cantuária. A mesma entrega, a mesma paixão e o mesmo fogo que levaram um altaneiro comandante Che Guevara a morrer na selva boliviana com a insuperável certeza de que ele, a vítima, era e sempre será moralmente maior que seu carrasco. Eu falo, senhores, de homens que entendem a desimportância de suas vidas e a magnitude maior de suas causas. Homens de princípios.
Acendo minha vela no altar da pátria ao meu herói, João de Menezes Cantuária. Visto a camisa do São Cristovão e digo que o guerreiro nunca perecerá. Um dia, se a dádiva da despedida me for concedida, espero virar para os filhos dos meus filhos e repetir a frase, a única frase, que justifica, eleva e consola: - Não podemos perder a próxima partida.
Axé
Marcadores: futebol
01/11/2006
A FESTA DA PENHA
Estamos no século XVII, nos arrabaldes da cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro. Um português, Baltazar de Abreu Cardoso, sai para caçar em suas terras. Subitamente aparece, traiçoeira , uma cobra. Gigantesca, para dizer o mínimo. Apavorado, sentindo o bafo quente da velha da foice, o conterrâneo de Bocage apela aos céus: - Valei-me, minha Nossa Senhora da Penha!
Antes de relatar o que houve com o Baltazar, quero fazer uma retificação. Falei no parágrafo acima de bafo quente da velha da foice. Ocorre-me agora que, reza a tradição, a morte é gélida. Ou deveria ser. Como nunca senti a presença da rude senhora, deixo ao leitor a opção. Quem assim preferir, pode substituir o bafo quente pelo, digamos, vento gélido da velha da foice. A cada um a morte que lhe convém.
Após esse rápido exercício de democracia no texto, volto ao português que, em apuros, recorreu aos serviços de Nossa Senhora da Penha. Acreditem. Feito o apelo, apareceu um lagarto que botou o réptil para correr. Comovido, Baltazar de Abreu Cardoso ergueu uma ermida no local do milagre. Prometeu, também, fazer anualmente uma festa para relembrar o fato. Assim conta o povo, e como eu não costumo ir contra a força do povo, acredito piamente na história. Começou aí uma das maiores tradições cariocas, a festa da Penha.
(Reparem vocês que a festa surge para louvar um milagre. E, puta-que-pariu, que milagre! Aproveito o ensejo e peço que a Virgem também me proteja de uma cacetada de cobras que cruzam meu caminho. Aguardo os lagartos vingadores para afugentar as peçonhas.)
Feito o apelo ao sagrado, constato, porém, que o milagre maior não foi o da santa. Foi o do povo carioca, que tomou para si a festa e a transformou, no início da República, numa espécie de folia pré-carnavalesca. Vou aos fatos.
A República não gostava do povo. A escravidão fora abolida em 1888. Os homens do poder poderiam, perfeitamente, ter pensado na adequação do ex-escravo ao mercado formal de trabalho. Coisa nenhuma. Optou-se pela vinda do imigrante europeu, em uma nojenta tentativa de promover uma espécie de branqueamento racial que colocasse o país na trilha da civilização.
A tara desse pessoal - os tucanos da época, digamos assim - era modernizar e higienizar o Rio de Janeiro, adotando Paris, a pedante capital francesa, como modelo de conduta e estruturação urbana. E tome de derrubar cortiços e colocar a polícia para descer a porrada em pretos e pobres. Nesse clima, as manifestações populares - o samba, a capoeira e a macumba, por exemplo - eram duramente reprimidas, vistas como símbolos do atraso e da barbárie de um país mestiço.
Mas o povo, meus amigos, é foda. A rapaziada literalmente virou dona da festa. Os capoeiras faziam suas rodas, as baianas preparavam seus quitutes e os malandros mostravam os sambas que tinham acabado de compor. A festa, aos poucos, se transformou no maior evento popular do Rio de Janeiro depois do carnaval.
Os donos do poder fizeram de tudo para impedir. Em 1904, 1907 e 1912, a prefeitura proibiu rodas de samba nas proximidades da Penha. A rapaziada foi lá, saiu na porrada e fez. Havia ordem de prisão para praticantes da capoeira. A rapaziada puxou o toque de São Bento Grande no berimbau e gingou. A baiana temperou o acarajé, a cerveja gelou e o Rio de Janeiro, cidade mestiça, pátria de Lima Barreto, mostrou que o espaço da civilização é a rua e Paris de cu é rola.
Ao ler um belo texto sobre a festa (do livro A Subversão pelo riso de Rachel Soihet - leiam ! ) deparei-me com a notícia, publicada pelo jornal do Brasil em 1904, que um violonista foi preso e espancado pela polícia por insistir em cantar sambas nas escadarias da igreja. Tenho certeza que no ano seguinte, e no outro ano também, esse violonista voltou ao monte da Penha e orou em forma de batuque aos pés da ermida sagrada.
Aos capoeiristas, malandros, sambistas, macumbeiros, baianas, floristas, carroceiros, condutores de bonde, putas, jogadores, brancos, negros , mulatos, enfim, ao povo devoto e festeiro da Penha, acendo minha vela de sete dias (para durar!) no altar da Pátria. A Virgem, tenho convicção, aprova o meu gesto. Ela sabe, mais do que ninguém, que maiores são os milagres do povo. E se ela esquecer, Exu, respeitosamente, vai lá, canta um samba, faz a festa e avisa.
Axé.
Marcadores: Festa da Penha
