11/12/2006

O BANQUETE DO CAPELOBO

Senhoras e senhores, o Capelobo está solto nas ruas, pintando e bordando como nunca dantes. Para os desavisados, ele, o Capelobo, é um animal assombroso. Segundo relatos, o dito cujo tem corpo de homem, repleto de pêlos, e cabeça de tamanduá-bandeira. Há os que afirmam, entretanto, que o focinho do Capelobo é de anta. Tamanduá ou anta? Eis uma questão momentosa que merece toda atenção por parte das autoridades civis e militares.
Dizem os índios timbiras que o Capelobo sai às noites devorando cachorros recém-nascidos, rasgando carótidas e bebendo o sangue de animais. Emite gritos pavorosos e tem o pé em forma de fundo de garrafa. Para matá-lo, é necessário que se acerte uma flechada, um tiro, ou coisa que o valha, no umbigo. Há controvérsias em relação ao ato seminal da dedada. Os índios que habitam as matas do Pindará, no Maranhão, admitem que se alguém introjetar o dedo no orifício analógico da besta, o Capelobo cairá mortinho da silva.
Mas vejam, caríssimos, o que me apavora. Dizem que quando o Capelobo encontra um ser humano, tem a capacidade de se fazer passar por um de nós. Quando ganha a confiança do cristão, abre-lhe, em meio a um abraço, um buraco no crânio, mete o focinho por alí e sorve toda a massa cefálica do infeliz. O Capelobo é um raptor de cérebros. O sujeito não compreende o que ocorreu, fica abestado, perde a capacidade de raciocínio , passa a comportar-se como um imbecil e só fala merda pro resto da vida.
Os índios tucanos falam também de um chupador de cérebros, o Bolalo, que vive margeando igarapés onde o Jurupari guarda seus instrumentos encantados. Mas este, perto do enfurecido Capelobo, assusta tanto quanto o Pluft, o fantasminha camarada. O Capelobo é que é, literalmente, o bicho. Diante desta fera brasileira, Lobisomem vira poodle de madame.
O drama é que esse horrendo elemental despirocou, saiu das florestas e anda pintando os cavacos pelas cidades. Tem atacado autoridades, jogadores de futebol, modelos e manequins, garotões bombados, jornalistas, colunistas sociais e crônistas do segundo caderno de um famoso jornal carioca (não poupou unzinho...) . Tem tara por mulheres que vestem produtos da Daslu, adora restaurantes granfinos, fez um curso de degustação de queijos e vinhos, é amigo íntimo do Ed Motta e liga todo dia pro Manoel Carlos.
Depois de muito rodar, comprou um apartamento na Lagoa Rodrigo de Freitas e, todos os dias, passeia mirando as pessoas que, embevecidas, observam o trambolho, ou melhor, a árvore de Natal que um banco colocou flutuando nas águas outrora sagradas de Sacopenapã.
Atrai os incautos e revela, no abraço apertado, as artimanhas do homem-anta sugador de cérebros. Feliz, passeia sua fúria escondida com a mesma leveza com que o homem de negócios, cercado de seguranças, faz sua caminhada matinal. Jamais imaginou encontrar tanta gente apta ao seu apetite assassino. Anda se alimentando tanto, o Capelobo.

0 Comentários:

Postar um comentário

Assinar Postar comentários [Atom]

<< Início