ODE AO HERÓI.
Dia desses uma revista semanal fez uma enquete sobre quem teria sido o maior brasileiro da história. O vencedor, acreditem, foi o médium Chico Xavier. A despeito da imbecilidade da pesquisa e, me desculpem mas não sou politicamente correto, da cretinice do resultado final, fiquei imaginando o que responderia se um entrevistador me fizesse a mesma indagação. Pensei e concluí com uma certeza inquebrantável. Eu diria com firmeza fulminante e exclamatória : - João Cantuária !
Ele mesmo, o mineiro de São João Del Rey que foi fundador e atleta símbolo do São Cristovão de Futebol e Regatas. Quem o viu jogar afirma que Cantuária foi um gentleman dos gramados. Ao mesmo tempo, defendia o São Cri-Cri com uma ferocidade assombrosa. Seu guarda-roupas era composto apenas de camisas, cuecas, calças, pijamas e meias brancas, pois Cantuária afirmava que não concebia vestir qualquer peça de roupa que não lembrasse o uniforme do time de coração.
Foi campeão do torneio início de 1918, legendário título do portento da Figueira de Melo, e teve uma morte precoce e épica, só comparável em beleza e dramaticidade ao martírio maior de Tiradentes e aos assassinatos de Zumbi dos Palmares e Carlos Mariguela, esses brasileiros máximos.
Cantuária foi vitimado pela gripe espanhola aos vinte e quatro anos de idade. Já com os sintomas da gripe bastante avançados - e sentindo a inexorável presença da indesejada das gentes - o ídolo fez questão de entrar em campo para defender o São Cristovão em um jogo sem importância contra o Bangu. Declarou que a possibilidade de morrer não o eximia minimamente do dever e do prazer maior de defender o pavilhão cadete. Faleceu dezenove dias após a partida. No leito de morte, o médico perguntou se Cantuária tinha algum recado a passar a familiares e amigos. Disse que não. Só pediu que mandassem um recado aos jogadores do São Cristovão: - Não podemos perder a próxima partida. (Que, aliás, foi contra o meu Botafogo.)
Não sei quanto foi o jogo seguinte ao falecimento. Aliás, nem quero saber. Imagino essa lendária partida como a última batalha do El Cid. Nos meus sonhos, o São Cristovão venceu e Cantuária foi o guerreiro que, mesmo morto, marcou o gol da vitória. Não ousem me desmentir.
Quando Lamartine Babo compôs posteriormente o hino do clube, não deixou de homenagear o homem e a lenda:
"São Cristóvão, São Cristóvão,
Teu passado é tão belo
Quantas vitórias em Figueira de Melo.
Quando vences outro clube
Oh ! São Cristóvão pertences
Aos corações são-cristovenses.
Estimulam sua fibra extraordinária
Os grandes feitos do saudoso Cantuária.(...)"
Digo isso, amigos, com seriedade - o assunto não comporta piadas - para lamentar a morte da honra e da valentia nos gramados e na vida. Não há mais Cantuárias. O que vemos são jogadores descompromissados com o clube, desconhecedores de que vestir uma camisa é exaltar a valentia dos seus vivos e honrar a memória dos seus mortos. A camisa de um clube é uma farda que deve ser envergada com o compromisso e a dignidade das consagrações da cavalaria andante.
Esses merdas, milionários e escrotos, não tem a dimensão da epopéia e o sentido trágico da vida que marcou o martírio de João Cantuária. A mesma entrega, a mesma paixão e o mesmo fogo que levaram um altaneiro comandante Che Guevara a morrer na selva boliviana com a insuperável certeza de que ele, a vítima, era e sempre será moralmente maior que seu carrasco. Eu falo, senhores, de homens que entendem a desimportância de suas vidas e a magnitude maior de suas causas. Homens de princípios.
Acendo minha vela no altar da pátria ao meu herói, João de Menezes Cantuária. Visto a camisa do São Cristovão e digo que o guerreiro nunca perecerá. Um dia, se a dádiva da despedida me for concedida, espero virar para os filhos dos meus filhos e repetir a frase, a única frase, que justifica, eleva e consola: - Não podemos perder a próxima partida.
Axé
Marcadores: futebol

3 Comentários:
Simas, meu bom! Coisa linda de novo. Salve João Cantuária! Eu sei quanto foi a partida seguinte, Simas! Eu sei! Mas quem sou eu para desmenti-lo? Deixemos as coisas assim, petrificadas no relicário que a utopia coloca em nossos corações. O meu, particularmente, tingido com as cores do São Cri-Cri, time do bairro em que nasci e me criei. Permita-me em breve narrar também em meu blog a história do Cantuária. Teu blog já figura no rol dos meus favoritos. Beijão.
Simas: taí mais um texto verdadeiro até o último fio de cabelo, que você nem tem mais, eis que tens a cabeça mais lisa que jamais vi. Nem a bola branca da sinuca brilha tanto.
Já te vi um sem número de vezes com a camisa do São Cristóvão!
Belo texto! Belo texto!
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