ZUMBI NA VOZ DO ANESCAR
Não há nada mais triste para um carioca do que sentir-se exilado em sua própria cidade. Digo isso porque é exatamente essa a sensação que tenho toda vez que compromissos profissionais - aulas e mais aulas - me obrigam a visitar o bairro da Barra. Local meio estranho, sem esquinas, sem botecos, repleto de casas comerciais com nomes em inglês, projetado para o deleite dos automóveis, não merece carregar no nome o sacrossanto epíteto de Barra "da Tijuca". Da Tijuca, que eu saiba, são o Eduardo Goldenberg, tombado em vida e no meu coração como patrimônio imaterial da cidade, e o Rodrigo Ferrari, o comerciante de carioquices que mais fez pelo Rio e por mim desde o Barão de Mauá.
Para exorcizar esse encosto de Miami que vez por outra me persegue, quero lhes contar uma história que tem como cenário um bairro carioquíssimo - São Cristovão, terra que viu nascer dois brasileiros máximos, D. Pedro II e Bruno Ribeiro.
Ali, pertinho do pavilhão, há um edifício desgastado pelo tempo que, para o bem da cidade, deveria ser imediatamente declarado patrimônio público, com placa na entrada e o cacete. Neste local trabalhou, como zelador e porteiro, o grande Anescarzinho do Salgueiro. Humilde, sempre modesto, Anescar parecia não ter a consciência da grandiosidade de sua figura para a história do samba carioca. Foi ele um dos nossos heróis civilizadores.
Anescar compôs, com Noel Rosa de Oliveira, os antológicos Quilombo dos Palmares (1960) e Chica da Silva (1963), além de ter participado do show Rosa de Ouro , que lançou Clementina de Jesus. É mole ou quer mais ? Fez parte, ao lado de Paulinho da Viola, Nelson Sargento, Jair do Cavaquinho e Elton Medeiros, do grupo Cinco Crioulos , que marcou, apesar da curta duração, a história do samba.
Um dia um sujeito qualquer - com poucos cabelos que anunciavam a futura calva - soube que o Anescar era porteiro do tal prédio. Foi até lá para saudar o baluarte. Aproximou-se, tocou o interfone e perguntou pelo Anescarzinho do Salgueiro. Extremamente tímido, Anescar apresentou-se e saudou o fã. Parecia quase constrangido com a deferência. Não tinha, definitivamente não tinha, a noção do que representava para a música brasileira. O autor de Chica da Silva, para alguns o maior samba da história da academia tijucana, trabalhava anônimo e silencioso nas proximidades da Quinta Imperial. Será que os moradores daquele prédio tinham consciência da honra absoluta que o destino lhes reservara? Sabiam quem era aquele porteiro que morreu pobre de marré de si e sem o devido reconhecimento? Temo que não.
Lembro do Anescar porque hoje é dia 20 de novembro, dia da Consciência Negra e marco da resistência maior de Zumbi dos Palmares. Ouço, como um brado magnífico de liberdade, a obra-prima que Anescar compôs para saudar os guerreiros da serra da Barriga e imagino que nenhuma homenagem que se faça ao quilombo superará em beleza o desfile salgueirense de 1960. Meninos, eu não vi, mas como queria ter visto.
É por isso que acendo minha vela de sete dias no altar da Pátria ao grande Anescarzinho do Salgueiro. Lá, na Aruanda ancestral, imagino que, neste dia 20, o capitão palmarino estará comovido com as homenagens que seus herdeiros de luta farão em todo Brasil. Imagino, também, que Zumbi olhará para o lado e dirá ao seu companheiro no Orun misterioso das almas:
- Anescar, canta de novo o meu samba, canta.
Saravá!

5 Comentários:
Caro Simas,
Morei no Rio até 96, quando me mudei para Campinas. Acho que houve um plebiscito para decidir se a Barra se separaria do Rio de Janeiro, certo? Agora te pergunto: nunca ninguém pensou em expulsar a Barra do Rio de Janeiro, mandar os caras prá Miami por exemplo?
Abraço
Coelho querido, houve de fato o tal do plebiscito.O arauto da autonomia da Barra foi o empresário Roberto Medina - um escroque, diga-se de passagem.
Quanto a mandar os caras para Miami, é o ideal. Você não tem idéia (parabéns por isso) de como está aquilo lá. Até estátua da Liberdade já tem em porta de shopping. Um horror.
Abraço.
Simão: como diria o seu Osório... pôta, mano! Texto emocionante, homenagem mais-que-merecida ao ilustre salgueirense!
E que final! Que final!
Simas: obrigado pelo "brasileiro máximo". Ganhei o meu dia. A Barra da Tijuca é um shopping-center. O não-lugar. Logo, não é carioca. Nem sequer é brasileira. Um putabraço!
Simas, meu camará, a única coisa boa da Barra é a minha mãe! Pois que ela trabalha naquela área, num daqueles shoppings enfadonhos repletos de - como diria um amigo meu do cursinho, um jovem esquerdista - burgueses fedorentos.
***
Quanto ao Anescar, infelizmente e doloridamente, o caso dele é só mais um. Como você mesmo deve saber, outros negros que deram contribuíções importantíssimas, que deram suas vidas à cultura afro-brasileira enfim, morreram no esquecimento, na sarjeta, na lástima.
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