A ETIQUETA EM SALA DE AULA.
Um professor precisa estar preparado para responder as perguntas mais inusitadas. Eu diria mesmo que esta é a arte maior do magistério e pode destruir as carreiras mais promissoras. Imaginem, por exemplo, a minha saia justa quando, recentemente, uma aluna me fulminou com a seguinte indagação:
- Professor, eu posso dizer que uma das medidas do Geisel para superar a crise energética foi a criação do rio São Francisco?
Ou esse diálogo absolutamente surreal:
- Professor, por que é que a partilha da África teve regras definidas no Brasil?
- Como assim?
-Não foi no Pará?
-Não entendi.
- Ué, a partilha não foi discutida na Conferência de Berlim?
- Foi...
- Então. Em Berlim do Pará.
Nestas situações, é imprescindível manter a calma. Em antanhos, a palmatória era o recurso didático indicado em questões deste porte. A moderna pedagogia sugere, porém, outros procedimentos. Em priscas eras, poderíamos mandar o aluno apontar o lápis Johann Faber número 2 e escrever mil e quinhentas vezes no caderno a resposta correta. Mas os tempos, insisto, são outros.
Em primeiro lugar, deve-se segurar o riso. Cair no chão dando soquinhos, bater com a cabeça no quadro, enfim, ter um acesso, pode criar no aluno trauma irrecuperável. Pedir demissão também não procede. Chamar o aluno de burraldino pode soar ofensivo. Besta quadrada, nem pensar. Vai que o adolescente comete o suicídio e você vai carregar a culpa mortal, arrasadora, até o fim dos seus dias. Ou então, caso o aluno pertença a uma gangue, ele pode reunir uns elementos para te enfiar a porrada.
Para mim, é fundamental agir como um gentleman. Explico. Nos dois casos acima mencionados, rigorosamente verídicos, fui de uma fleuma invejável. Quanto ao rio São Francisco, respondi:
- Não, meu amor, não foi o Geisel quem criou o rio São Francisco.
- E quem foi?
- Agora não lembro, mas foi um presidente antes dele. Talvez o Dutra...Verifico e te falo depois.
- Ahhh. Valeu, mestre.
- Disponha. Disponha.
E no diálogo seguinte:
- Não, meu querido, a Conferência foi em Berlim, na Alemanha.
- Ahhhhhhh. Achei que fosse em Berlim do Pará.
- Pois é. Mas tem duas Berlins. Igual ao Rio Grande, que tem do Norte e do Sul. Berlim da Alemanha e Berlim do Pará. Mas, para evitar confusões, é bom lembrar que Berlim, em tupi-guarani, significa Belém. Belém do Pará.
- Entendi, entendi...porra professor, tu sabe muito!
- Que é isso. É a minha obrigação. O que não vale é ficar com dúvidas.

10 Comentários:
Isso que é ter presença de espírito!
Berlim do Pará... puta que pariu!
beijos Simas!
São essas simples atitudes que o tornam um grande professsor!
E, sem dúvida, um verdadeiro gentleman!
abraço
Segurar o riso deve ser a parte mais dificil na vida de um professor. Francamente.
O Geisel hein? quem diria que ele havia criado rios e montanhas.... Ou teria sido o Medici????
SENSACIONAL!!!! e cômico, apesar de trágico!!!
careca.. são coisas q temos q passar... lembra daquela pergunta "histórica"... Claudio.. O que é uma Ilha? Ilha bóia? .. comparável ao Berlim do Pará..
Um inenarrável abraço
huahuahauhauah
me caguei de rir agora!
Daqui a pouco o msm aluno vai perguntar aonde nasce o Rio de Janeiro...hehe
Este comentário foi removido por um administrador do blog.
Este comentário foi removido por um administrador do blog.
Este comentário foi removido por um administrador do blog.
Muito boa pergunta, essa garota salvou a vida de milhares de vestibulandos q tinham dúvida do exato local de Berlim... uahuaauau...Simas como sempre um gentleman, respode até mesmo as perguntas mais imbecis com muita educação!
Postar um comentário
Assinar Postar comentários [Atom]
<< Início