29/11/2006

A ETIQUETA EM SALA DE AULA.

Um professor precisa estar preparado para responder as perguntas mais inusitadas. Eu diria mesmo que esta é a arte maior do magistério e pode destruir as carreiras mais promissoras. Imaginem, por exemplo, a minha saia justa quando, recentemente, uma aluna me fulminou com a seguinte indagação:
- Professor, eu posso dizer que uma das medidas do Geisel para superar a crise energética foi a criação do rio São Francisco?
Ou esse diálogo absolutamente surreal:
- Professor, por que é que a partilha da África teve regras definidas no Brasil?
- Como assim?
-Não foi no Pará?
-Não entendi.
- Ué, a partilha não foi discutida na Conferência de Berlim?
- Foi...
- Então. Em Berlim do Pará.
Nestas situações, é imprescindível manter a calma. Em antanhos, a palmatória era o recurso didático indicado em questões deste porte. A moderna pedagogia sugere, porém, outros procedimentos. Em priscas eras, poderíamos mandar o aluno apontar o lápis Johann Faber número 2 e escrever mil e quinhentas vezes no caderno a resposta correta. Mas os tempos, insisto, são outros.
Em primeiro lugar, deve-se segurar o riso. Cair no chão dando soquinhos, bater com a cabeça no quadro, enfim, ter um acesso, pode criar no aluno trauma irrecuperável. Pedir demissão também não procede. Chamar o aluno de burraldino pode soar ofensivo. Besta quadrada, nem pensar. Vai que o adolescente comete o suicídio e você vai carregar a culpa mortal, arrasadora, até o fim dos seus dias. Ou então, caso o aluno pertença a uma gangue, ele pode reunir uns elementos para te enfiar a porrada.
Para mim, é fundamental agir como um gentleman. Explico. Nos dois casos acima mencionados, rigorosamente verídicos, fui de uma fleuma invejável. Quanto ao rio São Francisco, respondi:
- Não, meu amor, não foi o Geisel quem criou o rio São Francisco.
- E quem foi?
- Agora não lembro, mas foi um presidente antes dele. Talvez o Dutra...Verifico e te falo depois.
- Ahhh. Valeu, mestre.
- Disponha. Disponha.
E no diálogo seguinte:
- Não, meu querido, a Conferência foi em Berlim, na Alemanha.
- Ahhhhhhh. Achei que fosse em Berlim do Pará.
- Pois é. Mas tem duas Berlins. Igual ao Rio Grande, que tem do Norte e do Sul. Berlim da Alemanha e Berlim do Pará. Mas, para evitar confusões, é bom lembrar que Berlim, em tupi-guarani, significa Belém. Belém do Pará.
- Entendi, entendi...porra professor, tu sabe muito!
- Que é isso. É a minha obrigação. O que não vale é ficar com dúvidas.

10 Comentários:

Anonymous thaís ramalho disse...

Isso que é ter presença de espírito!
Berlim do Pará... puta que pariu!

beijos Simas!

9:56 AM  
Anonymous rodrigo gonçalves disse...

São essas simples atitudes que o tornam um grande professsor!
E, sem dúvida, um verdadeiro gentleman!

abraço

1:19 PM  
Anonymous Anônimo disse...

Segurar o riso deve ser a parte mais dificil na vida de um professor. Francamente.
O Geisel hein? quem diria que ele havia criado rios e montanhas.... Ou teria sido o Medici????

1:21 PM  
Anonymous kaká disse...

SENSACIONAL!!!! e cômico, apesar de trágico!!!

1:59 PM  
Blogger Claudio Ifasinmi Falcão disse...

careca.. são coisas q temos q passar... lembra daquela pergunta "histórica"... Claudio.. O que é uma Ilha? Ilha bóia? .. comparável ao Berlim do Pará..

Um inenarrável abraço

8:40 PM  
Anonymous Diego Fusco disse...

huahuahauhauah
me caguei de rir agora!
Daqui a pouco o msm aluno vai perguntar aonde nasce o Rio de Janeiro...hehe

9:32 PM  
Anonymous Anônimo disse...

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10:13 PM  
Anonymous Professor Pasquale disse...

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2:39 AM  
Anonymous Anônimo disse...

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12:25 PM  
Anonymous Viviane disse...

Muito boa pergunta, essa garota salvou a vida de milhares de vestibulandos q tinham dúvida do exato local de Berlim... uahuaauau...Simas como sempre um gentleman, respode até mesmo as perguntas mais imbecis com muita educação!

9:47 PM  

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