23/11/2006

ALGUÉM AÍ VÊ O GALO CAMPINA?

O automóvel é a desgraça das cidades. Os amigos não sabem como tenho verdadeiro horror ao rodoviarismo suicida implementado no Brasil a partir do governo de Juscelino Kubitschek. E não falo nem dos elementos mais óbvios presentes na instalação da indústria automobilística, como o sucateamento de ferrovias e o completo descaso com o potencial hidroviário do Brasil. Refiro-me a uma mazela simbólica, o culto ao carro.
A implementação das indústrias exigia, evidentemente, um esquema de propaganda encima da idéia do carro como algo maior que um simples meio de locomoção. O automóvel foi alardeado, desde então, como poderoso objeto de consumo e símbolo de status social. O cidadão passa a ver o carro como ícone dos desejos mais profundos. Se antes o macho brasileiro orgulhava-se do pau permanentemente duro, agora valia mais a pena possuir um possante zero quilômetro. E tome brochada.
Cultuamos pilotos de fórmula 1, um negócio, cá pra nós, ridículo, como heróis nacionais. Compramos carros com velocidade máxima de 250 km/h para andar em ruas com buracos e trajetos que não permitem aventuras acima dos 60, pagamos seguros estratosféricos, poluímos o ar e corremos, ainda, o risco de padecer em um infinito engarrafamento (essa é a minha visão de inferno). Além disso, há o individualismo medonho que o automóvel estimula, como um bem particular que desqualifica o transporte coletivo. Conheço, juro que conheço, gente que nunca andou de ônibus. Tenho alunos que, dentro de um coletivo, se sentiriam tão a vontade como um Eduardo Goldenberg no Belmonte do Leblon.
Imaginemos a cidade do futuro, em que o automóvel é mais importante que o pedestre (a Barra, essa monstruosidade urbana, é assim). Não haverá esquinas, apenas autopistas cercadas por shoppings. Eu confesso que não concebo uma cidade sem esquinas e feiras-livres com um argumento irrefutável – a cidade sem esquinas e mercados populares é uma cidade abandonada por Exu. Perceberam a seriedade disso? O Homem da Rua, meu compadre, mora em cada esquina e em cada porta de buteco. Sem ele, eu me sentiria mais órfão que um personagem do Dickens. E Exu, senhores, gosta dos andarilhos.
Eu confesso, como diria meu amigo-irmão Cláudio Falcão, com inenarrável orgulho, que não nasci para dirigir veículos motorizados. Sou um motorista tão ruim, mas tão ruim, que essa consciência me permite não sofrer acidentes, já que a Mariazinha, minha tartaruga de estimação, é bem mais veloz que eu. Quem já me viu tentando estacionar sabe o que falo. Estou para o auto-motor como um Conde Drácula para o crucifixo. Não nos entendemos e nos repudiamos.
Mas deixem-me explicar porque estou escrevendo esse arrazoado contra os carros – estou ouvindo Luís Gonzaga, o Rei do Baião, único monarca que respeito além do Rei Momo, do qual sou súdito confesso. Certa vez um aluno perguntou se eu achava que “Caminhando”, do Geraldo Vandré, era a maior música de protesto político da história do Brasil. Eu respondi categórico: - Não. A maior canção de protesto que o mundo conhece, a mais revolucionária, superando inclusive o hino da Internacional Comunista, é Estrada de Canindé, letra de Humberto Teixeira e melodia do gigante do Araripe, o velho Lua.
Transcrevo a letra, que dispensa comentários:
Automóvel lá não se sabe
se é hômi ou se é muié
quem é rico anda em burrico
quem é pobre anda a pé.
Mas o pobre vê nas estradas
o orvalho beijando a flô
vê de perto o galo campina
que quando canta muda de cor.
Vai molhando os pés no riacho
-que água fresca, Nosso Senhor-
Vai olhando coisa a grané
coisas que prá mode vê
o crsitão tem que andar a pé.
Ai, ai, que bom
Que bom, que bom que é
Uma estrada e uma cabocla
e a gente andando a pé.
Ai , ai , que bom
Que bom, que bom que é
uma estrada e a lua branca
no sertão de Canindé.
Eis, meus amigos, a nossa Marselhesa!

25 Comentários:

Anonymous Anônimo disse...

É vocÊ? professor Simas do pH?
Se for... que emoção! Melhor professor de História da Vida!
Anonimo só até me responder se essa é sua verdadeira identidade

12:44 AM  
Blogger Luiz Antonio Simas disse...

Sou eu querido (ou querida), mas revele a identidade porque eu não estou aceitando postagens anônimas. Sou eu mesmo, cada vez mais careca e, infelizmente, com barriga proeminente (fazer o que? ) Abraço

6:02 AM  
Anonymous Felipe Bezerra disse...

Putz, Simas (hehehe!), o nosso velho Edu?, à vontade no Belmonte? Faz isso com ele não... hehehe...

No mais: achei muito bacana a tua reflexão sobre o automóvel!

Quanto a minha ida ao Rio, brevemente quero pintar por aí - e já estou ansiosíssimo para conhecer o Rio-Brasília!

E me mande o teu email, por favor.

8:31 AM  
Anonymous Felipe Bezerra disse...

Putz, Simas (hehehe!), o nosso velho Edu?, à vontade no Belmonte? Faz isso com ele não... hehehe...

No mais: achei muito bacana a tua reflexão sobre o automóvel!

Quanto a minha ida ao Rio, brevemente quero pintar por aí - e já estou ansiosíssimo para conhecer o Rio-Brasília!

E me mande o teu email, por favor.

8:32 AM  
Blogger Bruno Ribeiro disse...

Simas querido! Eu não dirijo, mano! Eu tirei carta e nunca dirigi um carro depois disso!

No dia 9 de novembro de 2004 eu escrevi isso aqui num antigo blog: http://www.cumbuca.com.br/blog.htm

Procure pela data, acho que você vai gostar, malandro.

Abraços!

8:53 AM  
Blogger Eduardo Goldenberg disse...

Tenho alunos que, dentro de um coletivo, se sentiriam tão a vontade como um Eduardo Goldenberg no Belmonte do Leblon.

Porra, Simas! Quando li isso hoje de manhã essa frase não estava aqui!

Sacanagem!

11:02 AM  
Anonymous Taissa Novis disse...

Graças a essa figura desconhecida chamada por Felipe Bezzerra, conhecida de outros sítios, cá estou a reviver momentos de pura cultura dos nada saudosos anos de pH (99)...Salvo, as horas de lazer; as verdadeiras viajens no tempo das suas inesquecíveis Histórias.
Já te adicionei ao estrelato dos meus favoritos, com muita honra.
Abração(daquela que queria te
levar na mala pro mochilão pela Europa)

1:46 PM  
Anonymous Taissa Novis disse...

Aliás, este texto tá muito bom! Apesar de dirijir, sem traumas, me vanglorio por todos os dias ver (e adorar) muitos galos campina por aí.
Abraço :))

1:51 PM  
Anonymous Eduardo Junqueira disse...

Sabia, meu caríssimo Simas, que o Marineti, aquele mesmo do tal do futurismo, dizia "um automóvel é um objeto mais belo do que a Vitória de Samotrácia"? Cruz credo. Nem um nem outro.

Eu, infelizmente, por morar onde Judas perdeu as botas preciso do meu carrinho, aquele gol mil empoeirado por fora e golfado por dentro. E só assim concebo um cidadão usar um automóvel: depredando-o a cada viagem. Nada é mais cretino do que um infeliz a encerar, numa manhã de sábado, a lataria do seu automóvel.

Sabe quando gosto da fórmula 1? Na hora dos acidentes. Magníficos. Um acidente automobilístico sim... muito mais belo do que a Vitória de Samotrácia.

2:21 PM  
Anonymous Gustavo disse...

AEUHuehAUEHAUehUAEHuaheea

És um figura...

2:44 PM  
Blogger Luiz Antonio Simas disse...

FELIPE, a nota aí : lasimas@brfree.com.br
TAISSA, veja só...que bom.beijoca e passe sempre por aqui.
EDUARDO JUNQUEIRA, querido, magnífica colocação!!!

2:59 PM  
Blogger Luiz Antonio Simas disse...

Bruno, fecho contigo...fecho contigo! Abração

3:41 PM  
Anonymous taissa novis disse...

digo,"dirigir"... né professor Simas!? :p Mas sério, reveillon em Manga (casa da Ce, minha prima) nunca mais foi o mesmo, sem vcs!
Manda um beijo para todos

6:13 PM  
Blogger Claudio Ifasinmi Falcão disse...

Que honra ser citado neste ilustre espaço... sem viadagens fiquei feliz pela lembrança. Quanto a direção ... senhores é verdade é triste. Apesar disto eu vou para qq canto com esse cara, alias ele como bom filho de quem é ... abre os caminhos para os amigos.

6:55 PM  
Blogger Eduardo Goldenberg disse...

Taissa Novis, minha filha... Sua correção, tardia, de "dirijir" para "dirigir" não foi capaz de alcançar a primeira tropeçada.

É "viagens", querida. E não "viajens" (erro crasso cometido no primeiro comenetário).

OBS: o Simas, que só tem lugar numa mochila que não é a sua, jamais VIAGARIA... VIAJARIA, isso sim (se é que você entendeu a piada).

12:17 AM  
Anonymous Candinha disse...

Edu, adorei o comentário.

12:39 AM  
Blogger Claudio Ifasinmi Falcão disse...

Seu eu conheço os filhos de baba Olorogum alguém que está no cais do rio Maraca ... vai apanhar.. vai sofrer.. vai ouvir... hehehe.. boa sorte. ... se necessitar de refúgio na zona sul de Vila Isabel.. vc sabe o caminho

12:44 AM  
Anonymous Taissa Novis disse...

Atencioso Eduardo Goldenberg, agradeço imensamente a correção e o caloroso empenho na tentativa de me fazer entender o quanto sou relapsa com nossa querida língua, usando até de artifícios tão bem humorados. Concordo, realmente sou, infelizmente tive ½ da minha formação fora do país e a outra em escola bilíngüe, e peco excessivamente ao escrever em português. Peço desculpas por eles.

No entanto lamento caso lhe incomode; adoro o “Simas-professor” e não vou deixar de elogiar seus textos por causa do seu delicado recado.

Em tempo: fique totalmente à vontade quanto a futuras correções! Porém um pouco menos com os “minha filha” e “querida”.

Cláudio Falcão (tb muito querido professor do pH de geografia?) não se preocupe. Avise, por favor, aos filhos de baba Olorogun que Eduardo Goldenberg fez sua boa ação de hoje, não havendo necessidade de castigos, seria um desperdício...

Aliás, no comentário de ontem, fui injusta, salvei apenas as aulas do Simas... adorava as suas também. Abraço.

10:16 AM  
Blogger Eduardo Goldenberg disse...

Mehor assim, minha filha... Melhor assim, minha querida...

Admire o professor.

Mas não queira levá-lo na sua moxila (deve ser com "x", já que você é bilíngüe).

Ele está noutra mochila.

E bem guardado.

E mais que isso - à vontade.

Claudão: como você já me conhece, compadre... Mas que beleza! É comigo mesmo!

6:07 PM  
Anonymous Felipe Bezerra disse...

Me conheces donde, Taíssa?

12:29 PM  
Blogger Eduardo Goldenberg disse...

De lugar nenhum, Felipe. É mentira dela.

9:08 PM  
Anonymous Taissa Novis disse...

Tribuneiros.com, Felipe, se não era seu homônimo, estavas indicando um texto do professor Simas por lá. Caso tenha sido, muito obrigada.

9:23 PM  
Anonymous Felipe Bezerra disse...

Sim, Taissa, fui eu mesmo quem indicou o excelente texto do Besouro Mangangá (e respectivamente este blog) ao meu amigo Andreazza, no site dele. (Ah... Obrigado pelo "essa figura desconhecida").

E que bom que tu tenhas gostado deste blog. Eu, pelo menos, desde a inauguração deste, passo freqüentemente por aqui pra ler alguma coisa (e tecer meus medíocres comentários, hehehe)...

Abraços, Taissa!

7:57 AM  
Anonymous Felipe Bezerra disse...

Viu, Edu, que não é mentira dela. (Hehehehehehe)!

8:29 AM  
Blogger Eduardo Goldenberg disse...

Vi, querido.

Mífu dessa vez.

9:38 AM  

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