14 de out de 2009

NOVO ENDEREÇO

Esse blog continua falando das coisas brasileiras em novo endereço. É só clicar aqui: http://hisbrasileiras.blogspot.com/ .
Abraços!

9 de out de 2009

O BLOG FOI OLÓ

Caríssimos, esse espaço subiu no telhado. Explico - faz tempo que o Histórias está completamente enlouquecido. Sabe-se lá que diabos ocorreu, mas o fato é que o blogspot ficou completamente desfigurado. Os links dos blogs que leio simplesmente desapareceram e as postagens antigas passaram a aparecer apenas no final da página. Uma zona, enfim.
Como sou um sujeito que respeita os sinais, percebi que é hora de cantar pra subir. Já vinha matutando sobre isso. O Histórias do Brasil está oficialmente encerrado. Cumpriu o seu papel com dignidade, o pobre.
Mas continuarei - depois de matutar também sobre isso - na rede.
Abri um novo endereço e mudei um pouquinho o nome do espaço - o nome agora é Histórias Brasileiras e Festas de Encantaria. Quem quiser continuar acompanhando esse escriba, é só clicar aqui e atualizar o link . O novo blog vai ser, espero, menos frequente que o Histórias do Brasil. Muitos textos que escrevi aqui aparecerão lá, devidamente reescritos e, quem sabe, melhorados.
Deixarei esse blog no ar para quem quiser consultar alguma coisa.
Abraços

8 de out de 2009

PONTO FACULTATIVO E VILA 2010

Esse espaço acaba de decretar ponto facultativo até, pelo menos, acabar o turbilhão causado pelo adiamento do ENEM e que está me fazendo trabalhar pra burro. Faz parte.
Enquanto não retomo o ritmo, deixo com os amigos a gravação do hino que a Unidos de Vila Isabel apresentará na Sapucaí no carnaval de 2010, em homenagem ao centenário do gigante Noel Rosa. O samba, de Martinho da Vila, tem causado polêmica. Uns acham absolutamente genial, renovador, revolucionário e o escambau. Outros temem que, pelo perfil de samba clássico, possa afundar a escola.
Ouçam aqui o samba na voz do puxador oficial, Tinga, tirem suas conclusões e opinem. Apenas um pitaco - a bateria do mestre Átila vai pintar e bordar, como já está aprontando na gravação. E eu vou torcer pelo sucesso da Vila em 2010, sem a menor dúvida. É Martinho cantando Noel, caceta. Gosto cada vez mais! A letra é essa:

Se um dia na orgia me chamassem / Com saudades perguntassem / Por onde anda Noel? /Com toda minha fé responderia/ Vaga na noite e no dia/ Vive na terra e no céu/Seus sambas muito curti/ Com a cabeça ao léu/ Sua presença senti/ No ar de Vila Isabel/ Com o sedutor não bebi/ Nem fui com ele ao bordel/ Mas sei que está presente/ Com a gente nesse laurel/ Veio ao planeta com os auspícios de um cometa/ Naquele ano da revolta da chibata/A sua vida foi de notas musicais/Seus lindos sambas animavam carnavais/Brincava em blocos com boêmios e mulatas/ Subia morros sem preconceito sociais / Foi um grande chororô/Quando o gênio descansou/Todo o samba lamentou ô ô ô/ Que enorme dissabor/Foi-se o nosso professor/A Lindaura soluçou/ E a dama do cabaré não dançou/Fez a passagem pro espaço sideral/Mas está vivo neste nosso carnaval/Também presentes Cartola/Aracy e os Tangarás/Lamartine, Ismael, e outros mais/E a fantasia que se usa/Pra sambar com o menestrel/Tem a energia da nossa Vila Isabel.

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24 de set de 2009

SAMBA DE RODA PRA SÃO COSME


Sou devoto amoroso do Brasil e de seus encantamentos. Nesse ponto, e dou o braço a torcer, quem está certo é o velho compositor baiano - quem é ateu e viu milagres como eu... E nossos milagres, camará, são muitos, temperados por tambores e procissões; pela Virgem no andor, o caboclo na macaia e o preto velho no gongá.

Já escrevi em certa ocasião que somos os filhos do mais improvável dos casamentos, entre o meu compadre Exu e a Senhora Aparecida - a prova maior de que o amor funciona. E Tupã, que se vestiu com o cocar mais bonito para a ocasião, celebrou a cerimônia entre a cachaça e a água benta.

Uma das nossas mãos está calejada pelo contato com a corda santa do Círio de Nazaré - a outra tem os calos gerados pelo couro do atabaque que evoca as entidades. As mãos do Brasil e do seu povo.

Nossos ancestrais passeiam pela vastidão da praia sagrada dos índios de Morená, retornam à Aruanda nas noites de lua cheia, silenciam no Orum misterioso das almas e florescem encantados nas folhas da Jurema.

Os guerreiros de nossas tropas trazem a bandeira do Humaitá, o escudo de Ogum e o estandarte da pomba branca do Divino Espírito Santo - a mesma pomba que pousou na ponta do opaxorô de Obatalá. São essas as nossas divisas de guerra e paz; exércitos do Brasil.

E digo isso porque está chegando o dia de Cosme e Damião. Dia brasileiro dos santos estrangeiros e orixás africanos. Dia de igreja aberta, missa campal, terreiro batendo, criança buscando doce, amigos bebendo saudades e aconchegos. Dia de comer caruru na rua.

A tradição brasileira de Cosme e Damião é a mais festiva do mundo. O bom, nessas horas que antecedem as folganças dos santos gêmeos, é vadiar no clima da folia, tomando pinga e ouvindo umas cantigas bonitas sobre os protetores dos meninos, já que prometi colocar nesse espaço louvações aos médicos que não queriam dinheiro [leiam aqui ].

A hora, agora, é de bater samba de roda pra Dois-Dois, na palma da mão e no ponteio da tirana. Coloquei na rede a grande Mariene de Castro cantando para os meninos [ aqui ] as cantigas mais bonitas que conheço em homenagem aos gêmeos. É de comover pedra!

Quando ouço Mariene vadiar pros santinhos, tenho forte desconfiança de que ainda morro um dia de tanta belezura do Brasil - um amor que não se explica, feito cachaça da boa, jabuticaba, sorvete de cupuaçu, beira de rio, gol do meu time, cerveja gelada, mulher amada, amigos do peito e caruru de Cosme.

E que no dia de cantar pra subir, um samba de roda desses me carregue ao encontro dos meus pela Noite Grande.

A casa é sua, Dois-Dois !

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DOIS-DOIS


É hora de ir entrando no clima da festa de Cosme e Damião - os santos médicos anargiros [inimigos do dinheiro, já que não cobravam as consultas] que foram martirizados em 27 de setembro de 287, durante a perseguição do Imperador Diocleciano aos cristãos.

No Brasil de todos os deuses e encantados, como não poderia deixar de ser, tudo terminou em macumba da boa - e Oxum virou a mãe dos gêmeos, sincretizados com Ibeiji - o orixá nagô que protege as crianças e cuida para que o tempo não amargue nossas vidas e preserve nossos afetos com saúde.

O encontro brasileiríssimo entre os santos católicos e Ibeiji começa a ser comemorado hoje nesse espaço - e o furdunço só termina domingo. Até chegar o dia 27, colocarei no Histórias canções que fazem referência aos meninos médicos, donos de todos os doces e carurus.

Para começar a entrar no ritmo da festa, ouçam aqui o grande João Nogueira cantando Dois Dois - mistura arretada de ijexá, ponto de macumba e samba; uma verdadeira oração de felicidade e proteção.

Dois-Dois é meu amigo leal e eu sem Dois-Dois não posso vadiar !

Saravá

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21 de set de 2009

O CHOQUE DE ORDEM E AS LARANJAS DA SABINA


Ainda não escrevi coisa nenhuma sobre o choque de ordem com o qual a prefeitura do Rio de Janeiro resolveu eletrocultar, ou melhor, disciplinar as ruas da cidade. Hoje vou dar meu pitaco nessa questão.

Reconheço que é necessário impor restrições à bandalheira pública, mas às vezes me parece que algumas ações dos homens da lei caberiam melhor em um regulamento de um daqueles hospitais para o tratamento da tuberculose que existiam em Campos do Jordão, na década de 1930.

Alguns agentes municipais em ação lembram muito o subdelegado que expulsou a Sabina das Laranjas da porta da antiga Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, nos tempos do Império.

Terminei esse pequeno parágrafo acima e desisti de escrever diretamente sobre o tal choque de ordem. Farei melhor: vou contar como foi o forrobodó da revolta das laranjas de antanho. Ao caso.

Sabina era uma quitandeira famosa, provavelmente ex-escrava, que trabalhava nas ruas do Rio de Janeiro nos idos de 1889, ano em que a Monarquia foi pro beleléu e o Brasil virou República, no golpe de 15 de novembro.

Pouco antes da queda de D. Pedro II, mais precisamente em julho, os estudantes de medicina, republicanos até os ossos e principais clientes das laranjas Sabina, resolveram alvejar com as frutas do tabuleiro da vendedora a carruagem do Visconde de Ouro Preto, figura imponente do Império, que cruzou à frente da escola.

Na manhã seguinte, o subdelegado da região chegou com uns meganhas e, aos berros, expulsou Sabina do ponto, além de apreender seu tabuleiro e levar as laranjas sabe Deus pra onde.

Os jovens clientes de Sabina resolveram, então, armar um furdunço pacífico. Percorreram o centro da cidade com laranjas espetadas em bengalas e receberam impressionante adesão da população carioca. A marcha era precedida por um estandarte com uma coroa feita com bananas e leguminosas e uma faixa em homenagem ao homem da lei: Ao exterminador das laranjas.

Em pouco tempo, as ruas do centro estavam tomadas por uma passeata repleta de laranjas, bananas, maçãs e hortifrutigranjeiros em geral. Fez-se um carnaval fora de época nas esquinas do Rio. Os rebeldes saíram do Largo da Misericórdia, percorreram a Primeiro de Março e, ao entrar na Rua do Ouvidor, saudaram as redações dos principais jornais cariocas e receberam mais adesões e vivas entusiasmados.

Diante da reação popular causada pela remoção da quitandeira mais famosa da cidade, o subdelegado pediu demissão e a chefatura de policia permitiu que a quitanda de rua voltasse a funcionar no mesmo local.

A história de Sabina virou lenda - uns dizem até que a punida não foi ela, mas uma outra vendedora de sua quitanda, de nome Geralda. Não importa - Sabina estava imortalizada pela cultura das ruas cariocas.

Em 1890, logo depois da queda do Império, os irmãos Arthur e Aluísio Azevedo popularizaram Sabina na revista teatral A República. O curioso - e revelador de uma época em que o racismo era explícito e quase não havia atrizes negras - é que a artista que representou Sabina no teatro era uma grega, tremenda branca azeda, chamada Ana Menarezzi.

A canção As Laranjas de Sabina, composta para o espetáculo dos Azevedo, acabou sendo, segundo o pesquisador José Ramos Tinhorão, uma das primeiras em que a expressão mulata apareceu na história da música brasileira. Eis o trechinho garboso:

Os rapazes arranjaram
Uma grande passeata
Deste modo provaram
Quanto gostam da mulata, ai...

É isso por hoje. E o choque de ordem atual da prefeitura? No fundo só falei sobre ele, ora bolas ! É que as laranjas da Sabina acabaram dominando o texto e eu não sou de contrariar esses rumos que a prosa de vez em quando cisma de tomar.

Abraços

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16 de set de 2009

OS SANTOS QUE A ÁFRICA NÃO VIU


Nasci e cresci dentro de um terreiro de macumba. Digo isso com um orgulho tremendo. Minha avó, a Dona Deda, era mãe de santo das boas, versada nos segredos da jurema e da encantaria. Fui, por isso mesmo, batizado nos conformes da curimba - protegido pelo caboclo Pery e pelo Exu Tranca Rua das Almas e oferecido aos cuidados da lua velha, num terreiro grande de Nova Iguaçu.

Minha infância foi assombrada pelo rufar dos tambores brasileiros - e pelo alumbramento com os caboclos de pena e os marujos e boiadeiros da minha macaia querida. Quem viu, viu - e sabe do que eu falo.

Em um certo momento, busquei as raízes. Fui ao candomblé, me iniciei, recebi um cargo, cantei em iorubá. Não adiantou - em meu peito continuava batendo mais forte a virada dos caboclos do Brasil : e de mim, que atravessei o mar só para ver a juremeira [ôh belezura!], isso ninguém tira !

Conversei com Seu Zé; recebi ordens de Seu Tranca Ruas; vi Tupinambá dançar encantado; fui seduzido pela beleza de Mariana - ôh, minha rainha e meu amor - e pela saudade de seu navio; temi a presença de Seu Caveira; cantei a delicadeza da pedrinha miudinha [leiam aqui ] ; respeitei o cachimbo velho de Pai Joaquim; me emocionei quando Cambinda estremeceu para segurar o touro bravo e amarrar o bicho no mourão. Os meus me entenderão.

É por isso, pelo meu encanto por Yara, pelo temor amoroso ao caboclo Japetequara - veterano bugre do Humaitá - pela reverência aos que correram gira pelo norte, que me emociono com os santos brasileiros e mestiços como nós - por amor ao Brasil, camará! Amor bonito e dedicado, feito o cocar de Sete Flechas e o diadema da sucuri no limiar das luas.

Se já está dito o que Zambi determina, salto de banda e me recolho por hoje, bradando um saravá afetuoso aos leitores e oferecendo aos malungos Bruno Ribeiro, Diego Moreira e Filipe Couto - e eles sabem o motivo - o samba monumental da Acadêmicos do Grande Rio de 1994 [ um samba muito maior que a escola, diga-se] : Os santos que a África não viu. Porque nós somos filhos de pemba, homens de bem e não temos vergonha do nosso povo. Ouçam aqui e leiam a letra desse canto de fé e seriedade :

África, misteriosa África / Magia, no rufar dos seus tambores se fez reinar/ Raiz que se alastrou, por esse imenso Brasil/ Terra dos santos que ela não viu/ Da negra terra é lei/ Veio o meu negro rei/ Ogum de fé que neste solo se encantou/ No mercado os ciganos lhe venderam ao senhor/Do tumbeiro à senzala seu lamento ecoou/ Plantou caiana/ Socou café/Pilou dendê/Pra benzer filho de fé/Viu no culto de malê (malê, malê)/ Preto velho catimbó (catimbó)/De um povo morenado/Conheceu caboclo bravo/Fascinado por Tupã/Yara no rio, sereia no mar/É Janaína que seduz com seu cantar/Correu gira pelo norte/Capoeira azar ou sorte/No Nordeste conheceu/Quem viveu na boemia/Malandragem, valentia e até hoje não morreu/Eu sou jongueiro baiana/Sapucaí eu vou passar/E a Grande Rio vem comigo, saravá/Quem sou eu, quem sou eu/Tenho o corpo fechado/Rei da noite sou mais eu.

Saravá!

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