
A função do professor de ensino médio guarda verdadeiras maravilhas e alguns problemas. Um deles - que me preocupa sempre - é o risco do sujeito, ao se dedicar a dar aulas, se transformar em um adultescente. Explico.
O adultescente é o camarada que vai ficando velho mas insiste em se comportar como se tivesse uns quinze, dezesseis, anos de idade. O professor envelhece, mas as turmas continuam da mesmíssima idade - e está aí o risco do mestre se transformar em um adultescente permanente.
Escrevi, nos primeiros dias desse blog, um texto sobre o adultescente, que retomei recentemente com algumas alterações. Reproduzo abaixo:
Não há nada mais patético que uma certa infantilização do mundo a que somos submetidos cotidianamente. Os tempos atuais, sobremodo sombrios, criaram a figura do adultescente, esse híbrido medonho que se recusa a conviver com o mistério do tempo e as suas marcas físicas e emocionais.
Visual bem transado, corpinho malhado , sibarita tardio, o adultescente frequenta micaretas, fala as gírias da garotada, conhece as boates da moda, curte o som do momento e alterna momentos de arrogância absoluta com instantes de fragilidade emocional.
Seu exemplo maior, entre as mulheres, talvez seja a apresentadora Xuxa, que continua, qual uma Dercy Gonçalves de festa infantil, a falar com uma entonação de débil mental e usar maria-chiquinhas tipicas de erês de umbanda.
Entre os homens, o adultescente é mato. É emblemático o exemplo de Serginho Groisman, um sujeito infantilizado que, aos cinquenta e tantos anos, fica pulando com um microfone na mão enquanto hordas juvenis dançam ao som de uma música baiana qualquer que, invariavelmente, fala das delícias de um beijo na boca e do corpo molhado de suor.
O pânico do adultescente homem é o cabelo branco, a careca ou, horror dos horrores, a barriga de chope. Adora praticar esportes radicais e acha Ayrton Senna o maior brasileiro que existiu. A seleção brasileira de futebol é, atualmente, um covil de adultescentes de chuteiras.
Já que falei de mulheres e homens, há que se falar dos viados - o tipo adultescente também grassa entre a rapaziada que é chegada em acariciar o vergalho. O adultescente gay ama, verdadeiramente ama, a cena eletrônica atual. É sofisticado, busca um parceiro que o compreenda e gosta de viajar para a Disneylandia, onde faz questão de comprar uma Minie de pelúcia de um metro e meio.
Aos trinta e tantos anos anos, o adultescente bicha resolve fazer teatro no Tablado ou na CAL, como processo de auto-conhecimento. As mulheres o acham um fofo e querem protegê-lo, já que se trata de pessoa extremamente sensível que, quando magoada, toma remédios e pensa em cortar os pulsos.
Adultescente que se preza chama a cantora Ivete Sangalo de "a Ivete", com inequívoca intimidade. Se identifica com as letras [profundas como as mensagens de cartões de namorados das Lojas Americanas] do Renato Russo e tem Caetano Veloso como referência mais sofisticada. Fecha os olhos quando escuta O Leãozinho.
Ser adultescente é frequentar festas plocs, bailinhos e shows de rock na praia - tentando descolar credencial para o espaço vip. Perto do carnaval, é passar a ir aos ensaios da Grande Rio na zona sul carioca e descolar uma camisa de diretor da agremiação emergente. Todo adultescente é torcedor escola de Duque de Caxias, mesmo que não saiba.
O adultescente venera a alegria[e é por isso, paradoxalmente, um deprimido em potencial] e seu maior objetivo é ser feliz, como se isso fosse lá um horizonte decente para um sujeito. A felicidade desse bípede festivo, sua busca incessante, consiste em projetos de vida entusiaticamente elaborados, como a compra de abadás para pular o carnaval em Salvador - uma alternativa ao desfile da sua Grande Rio no sambódromo.
O melhor antídoto contra esse tipo infame é abrir uma gelada, sentar num boteco simples - onde esses elementos não entram - e ouvir um samba triste do mestre Silas, um tango do Discépolo ou do Gardel e uma seresta do velho Silvio Caldas.Prestamos, assim, reverência ao Tempo, divindade poderosa, e nos preparamos, nas esquinas da vida, para o dia em que o canto der espaço ao silêncio da noite grande. Bem longe dessa gente.
Abraços.
[Entro de férias amanhã e vou passar duas semanas tomando cerveja e comendo camarão nos Lençóis Maranhenses, Delta do Parnaíba e arredores. O blog volta a ser atualizado no início de agosto]

